Igor Gielow: Folha de São Paulo
Uma das bolas cantadas durante a campanha de 2014 dizia respeito à
dificuldade de uma transição, no caso de vitória da oposição após anos
de domínio do PT sobre a máquina federal.
Não aconteceu. O hoje detento João Santana, digo, Dilma, venceu. Só que
durou pouco, levando à situação antecipada com dificuldades extras: o
pessoal de saída não reconhece quem chega como legítimo.
Política de terra arrasada é tão antiga quanto a guerra. Assim, vemos
resistência de vários setores, em especial dos mais aparelhados pelo
petismo, contra o que chamam de "governo golpista", aspas obrigatórias. É
uma gente que, na média, não faz justiça à ideia de servidor público.
Mas a intensidade do choro é proporcional ao resultado: onde estão os
"artistas contra o golpe" após a manutenção do status quo? Ocupando uns prédios inúteis, talvez.
A EBC, estatal bizarra que no papel quis emular a BBC e na prática vive o "Pravda", é palco de uma disputa simbólica e mesquinha.
Seu presidente foi alçado ao cargo às vésperas do impeachment, e se
agarra ridiculamente a um cargo que não mais lhe pertence porque não
existe comunicação institucional independente no Brasil. Tudo errado.
Fossem sérios o sistema e os personagens, ninguém discutiria sua
permanência. O novo regime o derrubou à força, ele recorreu e ganhou
provisoriamente. Tanto faz o desfecho: audiência da comunicação de
governo seguirá sendo um traço.
Isso tudo explica a decisão de Michel Temer de apoiar o aumento do
funcionalismo: comprar alguma tranquilidade. O mercado, ávido por
bonança, por ora perdoou a contradição: nada como a boa vontade.
Sem pudores, o presidente interino comemorou a "pacificação" com setores
que só sossegam quando antecipam dinheiro na conta. Ele está certo, de
seu jeito e reconhecendo nossa miséria: a bomba fiscal só explodirá no
colo de quem o suceder.
extraídaderota2014blogspot





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