editorial de O Globo
Delação
de ex-diretor da Petrobras sobre a compra de Pasadena vai contra a
ideia de que a presidente é uma pessoa ‘honrada’ sendo injustiçada'
Lula conseguiu elegê-la como garantia de continuidade dos bons momentos
do seu governo. Mas nada de importante deu certo: a gerente não
conseguiu destravar os investimentos públicos, listados no Programa de
Aceleração do Crescimento, e a economista de formação conduziu um dos
maiores desastres da história do país, devido à aplicação do mirabolante
“novo marco macroeconômico”.
Restou de patrimônio para Dilma a imagem de “mulher honrada”, como brada
seu advogado no processo de impeachment, José Eduardo Cardozo. Mas este
ativo também já havia sofrido arranhões. Afinal, como a presidente do
Conselho de Administração da Petrobras desde janeiro de 2003 não tomara
conhecimento do bilionário esquema de superfaturamento de contratos com
empreiteiras para financiar políticos do PT, PP e PMDB? A pergunta
sempre pairou sobre Dilma, e agora, a partir da divulgação pelo Supremo
da delação premiada do ex-diretor da estatal Nestor Cerveró, ela desaba
de vez sobre a presidente afastada.
Diretor da área internacional da empresa quando da compra mais que
suspeita da refinaria de Pasadena, no Texas, pela estatal, Cerveró foi
responsabilizado por Dilma, presidente da República, pelo mau negócio —
prejuízo de US$ 792,3 milhões à estatal. Na delação liberada pelo STF,
ele é direto: Dilma tinha conhecimento de todos os detalhes da compra da
refinaria. Negócio que gerou propinas, já comprovadas.
Cerveró admite que ela deveria saber que políticos recebiam dinheiro
desviado da Petrobras. Ele não tem provas. Evidências, porém, não
faltam, e há pelo menos um testemunho de que a presidente da República
tentou obstruir a Justiça na Operação Lava-Jato.
Segundo o senador Delcídio Amaral, a presidente tratou com ele da
barganha na indicação de um ministro para o STJ, Marcelo Navarro, em
troca da aceitação do pedido de habeas corpus do empreiteiro Marcelo
Odebrecht. Acrescente-se o telefonema grampeado pela Justiça em que
Dilma e Lula tratam do termo de nomeação do ex-presidente para a Casa
Civil, a fim de protegê-lo da Lava-Jato com o foro privilegiado do STF.
Outra obstrução.
A antiga imagem de Dilma sofre, também, com a revelação, pelo GLOBO, de
que dinheiro do petrolão, portanto surrupiado da estatal, financiou
gastos pessoais da presidente, como o deslocamento de São Paulo para
Brasília do cabeleireiro Celso Kamura para atendê-la.
E fica ainda mais degradada depois de reportagem de “Época”, em que o
lobista Benedito Oliveira Neto diz que Giles Azevedo, assessor próximo
de Dilma, teria pagado dívida de campanha com dinheiro da Secretaria de
Comunicação.
O PT não quer um desfecho rápido para o impeachment, por apostar no
desgaste do presidente interino Michel Temer. Mas revelações que começam
a surgir, e não só na Lava-Jato, também não ajudam a presidente
afastada.
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