por Hubert Alquéres Com Blog do Noblat - O Globo
O mapa da votação na Câmara Federal aponta uma dessas ironias da
História. No seu nascedouro, no ABC paulista, o lulopetismo pintou como
produto da modernidade do desenvolvimento capitalista - a exemplo de
outros partidos operários que se erigiram em poder em países
capitalistas e, de fato, criaram um ordenamento social mais justo.
Treze anos depois de ser governo, e no momento mais dramático da crise
terminal de seu projeto de poder, o lulopetismo tem suas casamatas nas
unidades da federação menos desenvolvida, onde a dependência do Estado
marca a ferro e fogo a população e seus representantes, os
parlamentares.
A ironia é exatamente essa: o partido que se propunha ser a força
transformadora da sociedade é hoje um partido não mudancista e atrasado,
perpetuador da forma ossificada de se fazer política. Está de costas
para o agronegócio, para a economia real e seus trabalhadores e para a
classe média moderna - urbana e rural. Isto explica porque os
melhoresdesempenhos eleitorais da presidente Dilma Rousseff foramno
Nordeste e em Estados governados pelo PT.
Aonde o capitalismo chegou e se instalou plenamente, o Partido dos
Trabalhadores perdeu substância. Hoje exerce influência nos movimentos
sociais ainda não incorporados à economia moderna, como o MST,
principalmente o do Nordeste e Norte, onde a bandeira da reforma agrária
ainda tem apelo, e nos excluídos da modernização urbana; como o
exército de subproletariado do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Para entender este definhamento, essa transmutação em um “partido dos
grotões” e dos “bolsões de miséria” há que se mergulhar no tempo.
Para chegar ao poder, Lula selou um contrato, através da Carta aos
Brasileiros. Elegeu-se acenando com um jogo de ganha-ganha. Verdade que
os de cima ganharam bem mais e aos de baixo sobrou a menor parte do
bolo: a ampliação da rede social de proteção e dos programas sociais
distributivistas.
A luz amarela acendeu para as classes médias urbanas, com o escândalo do
mensalão. Ali trincou o cristal. As camadas médias começaram a perceber
o engodo do discurso do “é diferente de tudo que está aí”. Descobriram
que o PT fez coisa muito pior, inovou em matéria de assalto à coisa
pública.
O boom das commodities permitiu Lula ir em frente. Tudo ia bem no país
das maravilhas. Ali por 2010, as aparências, essa face enganosa das
coisas, indicavam o Brasil como o grande país emergente, estável
econômica e politicamente, com status de reivindicar um assento no
Conselho de Segurança da ONU e futura sede de dois eventos mundiais: a
Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas 2016.
A autoestima do brasileiro estava lá em cima, como demonstra as palavras
de um jovem, em uma entrevista de 2011: “O Brasil está muito mais
posicionado no mundo do que estava há alguns anos. É uma valorização
daquilo que é brasileiro, voltado para o Brasil. Isso faz com que essa
geração tenha um sentimento muito maior de ser brasileiro”.
O gigante tinha pés de barro.
A bolha das commodities passou. O lulopetismo desperdiçou uma
oportunidade de ouro para universalizar os direitos sociais básicos -
saúde, educação e saneamento - e promover a cidadania dos excluídos. Em
2013, a sociedade deu seu recado quanto à sua insatisfação e seu cansaço
com a baixa qualidade dos serviços públicos e com a forma de se fazer
política no país, cujas mazelas foram elevadas ao infinito nos governos
Lula-Dilma.
Nas eleições de 2014 já era visível o deslocamento de parte substantiva
da sociedade, particularmente nos polos desenvolvidos do país. Dilma
perdeu a eleição até mesmo no “cinturão vermelho” do entorno de São
Paulo e na outrora cidadela do petismo, o ABC paulista.
O arrefecimento da crise ética, econômica e política destes dois últimos
anos horizontalizou o fosso entre o lulopetismoe a sociedade. Ele não
se resume apenas às camadas médias, perpassa todas as classes sociais e
todas as regiões. Há uma coincidência interessante a ser observada. Em
média, o governo Dilma é desaprovado por algo e m torno de 70% a 75% dos
brasileiros. Pois bem, a presidente foi derrotada na Câmara por 73% dos
deputados.
A conclusão do enrosco é que Lula e Dilma prestaram enorme desserviço à
própria esquerda. Jogaram o pêndulo da sociedade para a direita, tiraram
da toca a extrema direita, que estava sem espaço desde a democratização
de 1985. Serão necessários v& aacute;rios anos para que um novo
projeto de esquerda, mesmo de uma esquerda democrática, galvanize o
conjunto da sociedade.
Não há dois Brasis, um avançado e outro atrasado. Não são dois rios
distintos que jamais se encontram. Corremos todos no mesmo leito. E é
impossível um “partido dos grotões” impedir o curso das águas.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário