Rogério Furquim Werneck: O Globo
Há sinais de que as facções governistas do grande arquipélago peemedebista andam costeando o alambrado
Apalavra “condenado” deve ser lida aqui com a acepção que lhe é dada em
engenharia civil, para designar um edifício prestes a desabar, sem
possibilidade de recuperação. É pouco provável que, fragilizado como já
estava, o governo consiga se recuperar do desgaste adicional causado
pela vertiginosa sequência de eventos adversos a que se viu submetido
nas últimas semanas. Antes que os fatos se embaralhem no turbilhão da
crise, é bom tê-los em perspectiva e nitidamente diferenciados, para
entender com mais clareza as razões do dramático estreitamento de espaço
de manobra com que hoje se debate o governo.
Não é preciso uma lista exaustiva. Basta ter em conta os eventos mais
desgastantes, todos ocorridos nos 12 dias compreendidos entre 22 de
fevereiro e 4 de março: a prisão de João Santana; as evidências de que,
em meio à campanha presidencial de 2014, o marqueteiro teria recebido,
em contas de empresas não declaradas no exterior, vultosos pagamentos
feitos com recursos provenientes do petrolão; a divulgação do depoimento
do senador Delcídio Amaral, no quadro de um acordo de delação premiada,
em que acusa a presidente de tentativa de obstrução de Justiça e de ter
tido pleno conhecimento prévio das implicações da decisão de aquisição
da refinaria de Pasadena; e, para culminar, a condução coercitiva do
ex-presidente Lula, para prestar depoimento à Polícia Federal, e o
cumprimento de mandados de busca e apreensão em seus apartamentos de São
Bernardo, na casa de Atibaia e no Instituto Lula.
Para avaliar a extensão dos danos que essa saraivada de eventos adversos
vem impondo ao governo, é importante ter em conta seus efeitos
devastadores sobre narrativas cruciais a que o Planalto e o PT, a duras
penas, vinham se agarrando.
Que nem um real de dinheiro desviado do petrolão havia sido canalizado
para o financiamento da campanha presidencial de 2014. Que a presidente
se orgulhava de sempre ter assegurado amplo espaço para as investigações
da Lava-Jato, sem jamais ter tentado obstruir por qualquer meio o
andamento da operação. Que, embora tivesse ocupado diligentemente, por
mais de sete anos, a presidência do Conselho de Administração da
Petrobras, cinco deles como ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff
jamais tivera conhecimento de qualquer malfeito ocorrido na Petrobras.
Que, não obstante a escala impressionante da pilhagem de recursos
públicos observada em seus dois governos, o ex-presidente Lula sempre
esteve totalmente à margem desse processo, sem dele auferir qualquer
espécie de ganho.
O pior, para o governo, é que tudo indica que esse desmoronamento das
narrativas que lhe são caras deverá ser reforçado nos próximos meses,
por uma onda adicional de acordos de delação premiada, no contexto da
Operação Lava-Jato, estimulados pelas condenações em primeira instância e
pela nova jurisprudência firmada pelo STF, em fevereiro, que permite
que penas de prisão já sejam executadas a partir de decisões de segunda
instância.
Da noite para o dia, um governo que se sabia fragilizado passou a ser
visto como desenganado. E é natural que isso tenha deflagrado amplo
reposicionamento de forças políticas. Partidos de oposição, que chegaram
a alardear que o impeachment estava enterrado, passaram a ver com novo
ânimo a possibilidade de abreviar o mandato da presidente Dilma. Já há
até sinais de que as facções governistas do grande arquipélago
peemedebista andam costeando o alambrado, prontas a abandonar a
presidente à própria sorte. E rumores de que o resto da base governista
pode saltar do barco a qualquer momento.
O que esperar da condução da política econômica nesse quadro conturbado,
de fim de festa? Na melhor das hipóteses, que os tripulantes se
empenhem para, na medida do possível, evitar que a deterioração da
situação política se traduza em agravamento da brutal crise econômica
que enfrenta o país. Mas não é bem isso que vem sendo esboçado.
extraídaderota2014blogspot





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