por Alexandre Schwartsman Folha de São Paulo
Fiéis ao espírito do aniversário do partido, economistas do PT
propuseram um programa de emergência que prega a volta da política
econômica aos padrões que vigoraram no governo Lula. Seria ótimo se
fosse verdade.
Entre 2003 e 2010, o superavit primário recorrente atingiu, em média,
2,6% do PIB, considerando o afrouxamento da política fiscal em 2009 e
2010 (nos demais anos, a média foi 3,2% do PIB). Já o desvio médio da
inflação com respeito à meta foi inferior a 0,7% por ano, cerca de um
quarto do observado no governo Dilma, refletindo tanto o melhor
desempenho fiscal como a autonomia do BC.
Aquele período (ao menos até 2006) foi também marcado por reformas: a
criação do crédito consignado e a reabilitação das garantias no crédito
habitacional, assim como a nova Lei de Falências. Soma-se a isso a
reforma previdenciária que elevou a idade mínima para aposentadorias dos
servidores e criou a possibilidade de fundos de pensão para o
funcionalismo.
Por fim, na política social tivemos a fusão dos vários programas de
transferência no Bolsa Família, inicialmente execrado pelos economistas
do partido, como Maria da Conceição Tavares, que classificou um de seus
defensores, Marcos Lisboa, como "débil mental", sem, diga-se, nenhum
protesto de nossos sempre tão sensíveis "keynesianos de quermesse".
Infelizmente, porém, as propostas petistas não trarão de volta a
política econômica do governo Lula, mas sim o que preconizavam antes de
2003 e que veio a se tornar a tal "Nova Matriz Econômica" (NME), já no
primeiro governo Dilma.
Redução na marra da taxa de juros (a despeito da inflação crescente),
"revitalização" do PAC e aumento do gasto público são todos elementos do
trivial requentado da NME. A esses se somam elevação de impostos e,
coroando a obra, a proposta de utilização de parte das reservas
internacionais para financiar novos gastos.
Esta última, em particular, promete ser especialmente danosa. Equivale,
em última análise, a vender as joias da família para bancar novos
gastos, em vez de aproveitá-las para reduzir o endividamento. No fim da
história, sobrariam mais gastos e dívida mais alta, acompanhada de
crescente fragilidade externa resultante de um colchão menor de proteção
em moeda forte.
O desastre de 2011-2014 –estagnação seguida de recessão, inflação alta,
desequilíbrio externo e redução dramática do ritmo de crescimento da
produtividade– deveria bastar para convencer qualquer um de que a
retomada da NME, vitaminada por atrocidades adicionais, nos levaria de
vez ao fundo do poço.
Até o ministro da Fazenda, um de seus criadores, ainda hesita em levá-la
às últimas consequências, mas isso não é suficiente para os seguidores
do "princípio da contraindução" (segundo o qual o fracasso de uma
experiência, em vez de resul- tar na rejeição da hipótese, torna-se
pretexto para nova tentativa, na esperança que dessa vez funcione)
reconhecerem os problemas dela originados.
Com o perdão do clichê, não aprenderam nada, não esqueceram nada. Em
razão disso, às vezes me pego torcendo para que executem o que prometem
para ver se novo fracasso retumbante lhes ensinaria algo de útil; mas
depois me lembro de que tratamos de gente imune ao aprendizado. Seria um
enorme custo sem sequer esse modesto benefício.
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