editorial da Folha de São Paulo
Com certo azedume, seria possível dizer que nenhum fato, discurso ou
realização terá marcado tanto a passagem de José Eduardo Cardozo pelo
Ministério da Justiça quanto o seu pedido de demissão.
Numa situação marcada pela forte suspeita de que o ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) tenha sido beneficiado por empreiteiras em
propriedades destinadas a seu desfrute, cresceram as pressões petistas
no sentido de afastar Cardozo do cargo.
Teria sido incapaz, para os defensores do atual sistema, de "manter sob
controle" a Polícia Federal, que avança em suas investigações.
Demitindo-se, Cardozo denuncia tacitamente o cinismo de seus
companheiros de partido.
Considerá-lo não só infiel às expectativas lulistas de impunidade mas
também obstáculo para o sucesso das esfarrapadas versões que se
apresentam, entretanto, seria levar longe demais o papel desempenhado
por José Eduardo Cardozo.
A Operação Lava Jato, desencadeada para apurar uma rotineira suspeita em
torno de uma rede de doleiros, tornou-se um pesadelo para petistas e
aliados porque as autoridades seguiram com profissionalismo as
evidências, que não faltaram, de um esquema gigantesco demais para ser
ignorado.
Os seguidos abalos provocados desde as primeiras revelações sobre o
escândalo do petrolão obedeceram a uma lógica própria, e o Poder
Executivo sabia que não poderia abafá-los sem riscos.
Talvez sejam incontroláveis, numa democracia, os vazamentos de
informação –e, embora tragam consigo a possibilidade real de levar a
injustiças e distorções, funcionam também como antídoto para as usuais
manobras que o poder enceta para ocultar negociatas.
Com a saída de Cardozo, a presidente Dilma Rousseff (PT) perde uma
figura que atuava como advogado do Planalto –e não há de ser
coincidência que seu destino seja a Advocacia-Geral da União.
Ganha, por outro lado, a oportunidade de recompor suas relações com o
partido que, até há pouco, parecia inamovível na amarga tarefa de lhe
conceder sustentação.
Os fatores de afastamento entre o PT e o Planalto persistem, contudo, no
plano da política econômica. Não há como acreditar que desapareçam num
ambiente em que o prestígio pessoal da presidente continua
inapelavelmente escasso e em que sua agremiação se concentra para
intentar, nas eleições de 2018, uma patética ressurreição.
Fica reservado ao novo ministro, Wellington César Lima e Silva, o papel
de demonstrar, pela continuidade das ações da Polícia Federal, que José
Eduardo Cardozo não poderia ter revertido o curso que tiveram; ou de,
contentando o petismo, sinalizar a cisão definitiva entre essa
organização político-financeira e os interesses da sociedade, a que
pretende espoliar.
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