por Zuenir Ventura O Globo
É uma história que acompanhei desde o começo através do entusiasmo de
amigos como Hélio Pellegrino, Frei Betto e Henfil e de personalidades
como Mario Pedrosa, Antonio Candido, Sérgio Buarque, Apolônio de
Carvalho, que se orgulhavam de terem participado da reunião no Colégio
Sion, em São Paulo, no dia 10 de fevereiro de 1980, quando foi aprovado
por aclamação das cerca de duas mil pessoas presentes o manifesto de
fundação do Partido dos Trabalhadores.
O sonho era possível, pensava-se diante daquele movimento que reunia
sindicalistas, intelectuais, professores, jovens, velhos, a geração de
68, todos os que tinham lutado contra o regime militar, mas também
contra o autoritarismo do Partido Comunista e a herança populista de
Vargas.
Vinte anos depois, Lula anunciava orgulhoso que o PT estava pronto para
chegar ao poder com a bandeira da ética. Reconhecia que teria de
desenvolver alianças, mas “sem jamais cair na promiscuidade política”.
Bastaram mais dez anos para que ocorresse a perda da inocência.
No dia 10 de fevereiro de 2010, quando os petistas festejavam o 30º
aniversário, a repórter Soraya Aggege publicou uma corajosa entrevista
do então chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, dizendo
com todas as letras: “o vício da corrupção entrou em nosso partido”. E
explicava que o PT, que nascera questionando as instituições
tradicionais, acabara “se assemelhando aos outros partidos”.
Mais do que denúncia, era um alerta que, aliás, não adiantou muito.
Esse vício é muito poderoso e, mais do que todos os outros, difícil de
ser abandonado, porque não faz mal à saúde e é muito rentável.
O cigarro e o álcool matam; já a corrupção dá dinheiro e só agora está
dando cadeia no Brasil. Daí a dificuldade de combatê-la e até de
reconhecê-la. Tanto que no evento comemorativo dos 36 anos do PT no
último fim de semana, nenhum companheiro teve coragem de tocar no
assunto, mesmo sabendo que ele continua atual e é responsável pelo
desgaste do “partido da ética”.
Hoje, de acordo com o Datafolha, 49% dos eleitores não votariam em Lula
de jeito nenhum. Mas isso não o desanima, ao contrário. Ele aproveitou o
encontro partidário para dizer que, “se for necessário”, aceita ser
candidato em 2018: “estarei com 72 anos e tesão de 30 para ser
presidente da República”.
Como parte da campanha, mostrou sua força derrubando um suposto
obstáculo, o ministro da Justiça, para com isso atingir também a PF.
Ele sabe que, para alcançar seu intento, precisa provar aos
investigadores da Lava-Jato que, apesar das aparências, não é dependente
do maldito vício da corrupção.
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