Jornalista Andrade Junior

sábado, 19 de março de 2016

"Lula e Dilma apostam tudo para tentar sobreviver"

, editorial de O Globo
Ao nomear o ex-presidente uma espécie de primeiro-ministro com amplos poderes, a presidente colocou a Lava-Jato de vez dentro do Palácio, ao seu lado

A crise faz com que Dilma e Lula se abracem e joguem juntos seu futuro e, infelizmente, o do país. Às favas com a histórica demonstração de repúdio aos dois e a seu partido dada nas ruas no domingo, por milhões de brasileiros.
Importa para eles manter a militância reunida em defesa de um projeto de poder, dar-lhe fôlego na venda da ilusão de que o inteligente e esperto ex-metalúrgico, torneiro-mecânico de ofício, consertará os graves danos que ele mesmo ajudou a provocar na economia, e tudo isso só com vontade política, discurso e carisma.
Da soma da impopularidade de Dilma com o apoio em queda vertiginosa de Lula — que há tempos já não podia andar na rua e pegar voos comerciais — não resulta muita coisa. Pode, por alguns dias, melhorar o humor em Palácio, nos aparelhos encrustados na máquina do Estado e nos coletivos lulopetistas. Nada além disso. Como destilou ironia, ao GLOBO, um interlocutor do vice Michel Temer: “Lula no governo significa um peso a mais em um barco furado. Ou seja, afundará mais rápido”.
Profecias à parte, Lula e Dilma fazem uma aposta arriscada. Ele — em busca do foro privilegiado que lhe concedeu Dilma —, que salvará a sua criatura do impeachment por meio do apaziguamento dos aliados no Congresso, ao mesmo tempo em que colocará a economia para crescer novamente, movida por medidas de extrema acuidade. E ela aposta que, ao aceitar terceirizar o governo com Lula, terá, enfim, tranquilidade para percorrer o resto do último mandato. Falta, por óbvio, combinar com os fatos.
Os dois reagem à crise que engolfa o governo e o PT de acordo com os respectivos perfis. Dilma Rousseff reencarna a guerrilheira que nunca se entrega, e Lula, a jararaca ferida no rabo, desejosa de vingança. Fingem não entender o recado dos milhões nas ruas de domingo e partem para o contra-ataque. Tombarão de arma na mão, ameaçam. Mesmo que nestas aposta e luta o próprio país esteja em jogo. Isso considerando-se que, ao ceder poder a Lula — desprendimento inédito na sua folha corrida —, a presidente permita que ele patrocine o que poderá ser o ato final de debacle do país, colocando o Brasil de vez na maior crise da sua história, com todos os dramáticos desdobramentos políticos e sociais previsíveis. Será o suficiente querer reeditar o “novo marco macroeconômico” — mais gastos, nada de ajuste fiscal.
O ex-presidente, do posto de ministro-chefe da Casa Civil, mas com raio de ação ampliado, tem difíceis missões nos planos político e econômico. E terá de fazer tudo com um especial cuidado para, como alertou o colega de governo, Miguel Rossetto, reaproximar a base social do PT a fim de sustentar Dilma.
Entenda-se, espantar a ameaça de impeachment, estimular a economia, mas sem perder de vez o controle da inflação, e também sem frustrar os chamados “movimentos sociais”. Não será fácil, mesmo para um super-Lula imaginário.
Estes já são desafios enormes. E tudo piora com o fato de pairar sobre ele e Dilma a Operação Lava-Jato. É ilustrativo das dificuldades que cercam os dois que o ex-presidente tenha desembarcado em Brasília, para as últimas conversa com Dilma, na terça, dia em que o ministro do Supremo Teori Zavascki homologou e permitiu a divulgação da delação premiada do senador Delcídio Amaral, em processo de desfiliação do PT. Personagem com trânsito no Planalto, desde FH até ser líder do governo Dilma no Senado, o senador sempre foi bem informado dos bastidores, inclusive da Petrobras, em que foi diretor na gestão tucana. Não é bom presságio para Lula e Dilma esta coincidência de datas
Delcídio terminou preso pela Lava-Jato devido à gravação de conversa sobre formas de impedir que o ex-diretor Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, também apanhado pela Operação, assinasse com o Ministério Público acordo de colaboração premiada. 
Espezinhado por Lula e abandonado pelo PT, ele próprio fez acordo de delação e se multiplicou em vários homens-bomba. Explodiu inclusive junto à oposição, atingindo o senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato derrotado por Dilma em 2014 e tido como nome certo em 2018.
Quanto à presidente, para aumentar seu fardo, Delcídio garante que ela, à frente do Conselho de Administração da Petrobras, acompanhou de perto a compra desastrosa, de caso pensado, da refinaria de Pasadena, no Texas, conduzida por Nestor Cerveró. Bem como teria acompanhado de perto uma espécie de prêmio dado a Cerveró, na sua transferência da Petrobras para a subsidiária BR Distribuidora. Por suposto, tudo terá de ser provado, com a ajuda de Delcídio, conforme as normas dessas colaborações dadas à MP, polícia e Justiça, em troca da atenuação de penas.
Mas surgiu uma nódoa na imagem que a presidente cultiva com vigor, a de ser uma pessoa imune à corrupção. É possível, mas Dilma, por fé ideológica no “projeto de poder”e fidelidade a seu criador, Lula, pode ter desviado o olhar toda vez que era cometido um crime na Petrobras.
Há, ainda, a suspeita, surgida de uma fita gravada por um assessor de Delcídio com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, de que, por meio do ministro, a presidente estaria tentando impedir a delação do senador. Interpretações dos diálogos alimentam discussões. A questão deste tipo de interferência de Dilma cresceu ontem à noite, com a divulgação pelo juiz Sérgio Moro de uma gravação legal de uma conversa entre Lula, ainda não nomeado, e Dilma, em que surgem indícios de tentativa de obstrução da Justiça pela presidente, na concessão de foro privilegiado ao ex-presidente.
Contra Lula, há munição mais pesada. Delcídio ressuscita até mesmo uma suposta negociação iniciada com uma chantagem feita por Marcos Valério, preso devido ao mensalão, para conseguir R$ 220 milhões em troca do silêncio sobre o papel de Lula, então presidente, naquele escândalo. Delcídio relata que levou o assunto a Lula. Este nada respondeu. Mas o senador garante que algum dinheiro Valério recebeu.
Dilma disse ontem, em rápida entrevista coletiva, que Lula “terá os poderes necessários a ajudar o Brasil”. Mas ela não pode esquecer que ungiu como uma espécie de primeiro-ministro alguém que levará agora de vez a Lava-Jato para dentro do Palácio. Sem falar em desdobramentos de tudo o que tem sido denunciado nos últimos dias e que podem levar a Procuradoria-Geral da República a instaurar investigação sobre a presidente.

Os tempos estão muito difíceis para o governo e a sociedade — não só pelas crise política e econômica —, mas pela falta de perspectiva. Mas, para o governo, tendem a piorar, se lembramos que ainda há muito a ser descoberto na Lava-Jato. Há delações em andamento bastante esperadas. Do ex-deputado Pedro Correa (PP) e de executivos da empreiteira Andrade Gutierrez, observadores privilegiados do mercado bilionário e subterrâneo de doações de campanha. No caso da AG, inclusive aquelas oriundas de propinas obtidas em estatais e “lavadas” por meio de doações legalizadas na Justiça Eleitoral. Dilma, Lula e o país não deverão viver momentos tranquilos.











extraídaderota2014blogspot

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