Demétrio Magnoli:Folha de São Paulo
O círculo íntimo de Lula abrange apenas dois escudeiros. Paulo Okamotto cuida do caixa; Gilberto Carvalho, da política. Falando à Folha (7/3),
o segundo disparou uma ameaça dirigida a Dilma Rousseff e outra ao país
inteiro. Com Dilma, funcionou: enquadrada, a presidente reposicionou-se
na vanguarda do combate à Lava Jato. Agora, a escolha tornou-se
incontornável: é o impeachment ou o triunfo da velha ordem.
Carvalho chamou Dilma a mudar sua agenda econômica, sob pena de acentuar
seu "conflito com o partido", e formulou uma sentença de morte
condicional: "a sobrevivência dela estaria muito ameaçada se saísse do
PT". Quanto ao país, tudo dependeria do "comportamento da Polícia
Federal, do Ministério Público e do Judiciário". Há uma linha vermelha:
"Se ficar claro que a Lava Jato busca combater a corrupção, não o Lula",
ok. Caso contrário, "temo muito um processo que nos leve ao que
acontece na Venezuela". Ok?
Nas democracias, o Estado detém o monopólio da força legítima. Nos
sistemas autoritários, o regime tem o monopólio da força, que é
ilegítima. O regime chavista em declínio conserva o controle sobre o
Judiciário, as forças armadas e a polícia, usando-o para calar a
imprensa, encarcerar opositores e anular as prerrogativas da maioria
parlamentar eleita. Nana, nenê, que a Cuca vem pegar:
pronunciando a palavra "Venezuela", Carvalho apela ao discurso mitológico, traçando um paralelo impertinente, mas eficaz.
O Brasil é uma democracia. Mesmo longevo, o governo do PT não se
converteu num regime. Temos um Judiciário independente. A polícia e as
forças armadas são leais a suas funções constitucionais, não a um
partido. A Cuca de Carvalho só pode existir na esfera da imaginação
""mas é nela que investe o porta-voz de Lula. Seu recado dirige-se à
parcela da elite política que, temendo a Lava Jato, está disposta a
abraçar-se ao lulopetismo sob o pretexto da manutenção da "paz social".
Antes da entrevista de Carvalho, Dilma iniciara a primeira manobra
ostensiva contra a Lava Jato: a troca do ministro da Justiça. José
Eduardo Cardozo tombou sob a acusação lulista de não "controlar a
Polícia Federal", papel que seu substituto deveria desempenhar. Na hora
do depoimento de Lula, a presidente avançou o sinal, disparando ácidas
críticas à condução coercitiva, decisão judicial questionável por
qualquer um exceto a figura que exerce o Poder Executivo.
Depois, ela ouviu a mensagem de Carvalho e pintou-se para uma guerra contra o sistema de justiça.
A visita presidencial a Lula, em São Bernardo, um ato oficial de
desagravo a um investigado pela justiça, foi seguida pelo jantar em
palácio no qual Dilma ofereceu um ministério a seu antecessor. O cargo
serviria para alçar Lula acima da jurisdição de Sergio Moro e, ainda,
para transformá-lo, oficialmente, em coordenador político de um governo
devotado ao combate contra o Judiciário. Na sequência, o investigado
reuniu-se com Renan Calheiros, ensaiando unificar a resistência à Lava
Jato num bloco político suprapartidário. Segundo um cândido mas
eufemístico Calheiros, Lula "falou da necessidade de costurarmos a união
nacional".
A oposição errou ao apresentar um pedido de impeachment fundamentado
precariamente sobre as "pedaladas fiscais" –e mais ainda ao articular o
afastamento de Dilma com Michel Temer, líder de um PMDB consorciado no
"petrolão", e Eduardo Cunha, o homem das contas na Suíça. O cenário,
hoje, é outro. Nas múltiplas evidências recentes do financiamento das
campanhas de Dilma, em 2010 e 2014, por dinheiro oriundo da corrupção
encontram-se motivos suficientes para o impeachment. Contudo, a urgência
da remoção de Dilma decorre da operação criminosa em curso: a
transformação do Planalto na sede de um poder ilegal, consagrado à
obstrução da justiça. Impeachment já, pois o Brasil não é a Venezuela.
extraídaderota2014blogspot




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