Felippe Hermes
Poucos
momentos na história brasileira foram tão incertos quanto o atual.
Vivenciando uma crise política própria, o governo parece não encontrar
base que sustente um projeto de mudanças para a economia. Tentativas
incipientes de apresentar reformas como a da previdência, atualmente em
discussão, esbarram na falta de foco dedicado pelo Planalto, que hora
tem de salvar a economia, hora tem de salvar a si mesmo. Diante de um
cenário como este, alguns economistas acreditam que determinados
cenários futuros antes vistos como improváveis e pouco realistas, agora
estão cada vez mais prestes a se tornarem realidade.
Projetar
cenários é parte do trabalho de economistas e analistas investimento,
além de parte fundamental do planejamento das empresas. Sem perspectivas
para sair do cenário atual, de crise política e fiscal, o prolongamento
da crise é dado como certo – e com ele, uma série de problemas,
causados em boa parte pela apatia na qual se encontra a política
brasileira.
Abaixo selecionamos 5 destes cenários futuros. E por que você deve começar a se preocupar com eles.
1. A renda per capita brasileira em 2020 será, na melhor das hipóteses, igual a de 2010.
Nesse
exato momento, nós provavelmente estamos apenas no meio daquele que será
conhecido como o período de menor crescimento em toda a história
brasileira. A constatação é parte de um relatório realizado pelo Banco
Central junto ao mercado financeiro. A expectativa de quem lida
diariamente com investimentos é a de que a economia chegará em 2017 com
uma renda per capita semelhante a de 2008. Na melhor das hipóteses, em
um cenário improvável de retomada no crescimento em 2017, chegaríamos a
2020 com a mesma renda per capita de 2010, configurando que essa será a
primeira vez em toda nossa história econômica em que a renda per capita
das famílias brasileiras não crescerá entre o início e o fim de uma
década.
É bem
verdade que acertar previsão de PIB não é uma especialidade do mercado.
Nos últimos 10 anos, por exemplo, em nenhum momento o mercado previu o
PIB, o câmbio ou a inflação de dezembro com um ano de antecedência – e
em cinco dos últimos seis anos, o mercado previu um crescimento maior do
aquele que foi obtido de fato. Em dezembro de 2014, por exemplo, a
expectativa do mercado era de que a economia brasileira crescesse 0,55%.
Ao final do ano, a expectativa era de um crescimento de – 3,5%,
enquanto a realidade, revelada pouco tempo depois do IBGE, foi de um
crescimento de – 3,8%. O mercado erra, mas via de regra por ser otimista.
O importante, porém, é que por se tratar de um relatório semanal, é
possível acompanhar as mudanças de expectativas com certa precisão.
Os erros
por sua vez têm certa razão de ser. E a história da analista demitida
pelo Santander ao alertar que a reeleição de Dilma Rousseff resultaria
em uma piora da economia mostra o que pode ocorrer com aqueles cujas
previsões não agradam muito ao establishment político.
2. A previdência pública não irá continuar a existir nas regras atuais, e você talvez nem mesmo se aposente por ela.
Respondendo
por 42% de todos os gastos primários do governo, a previdência é hoje,
de longe, o maior peso no orçamento público. Gastamos com pensões,
aposentadorias e outros benefícios, 12% do PIB atualmente, número
semelhante ao de países europeus, com a pequena diferença de que temos
uma população muito mais jovem.
Há menos
de duas décadas, porém, os gastos com previdência representavam cerca de
5% do PIB. Para 2016, a expectativa é de que o déficit da previdência
atinja R$ 120 bilhões – 40,5% acima do resultado de 2015, dando sinais
de que há pouca ou nenhuma chance de reverter a situação no curto prazo.
Um dos
seis únicos países do mundo sem idade mínima para aposentadoria, o
Brasil possui ainda alguns outros problemas quando o assunto é
previdência. Nosso sistema previdenciário baseia-se na redistribuição de
renda entre aqueles que trabalham atualmente e os que já se
aposentaram. O resultado é uma conta cada dia mais difícil de fechar e
que, segundo o TCU, possui um déficit previsto de R$ 2,3 trilhões
(despesas certas sem receita), até que o último trabalhador atual acabe
de receber sua aposentadoria.
Para
muitos, o déficit é irreal, uma vez que a aposentadoria urbana não gera
déficits, apenas a aposentadoria rural. Criada na constituição de 1988, o
direito à aposentadoria rural sem necessidade de contribuição prévia
foi responsável por um déficit de R$ 90 bilhões em 2015. Para cada R$ 1
contribuído por trabalhadores rurais atualmente, a previdência pagou R$
10.
Independente
da conta que se faça, as previdências rural e urbana são solidárias, o
que significa que uma deva sustentar a outra em caso de déficit. O
resultado está em uma deterioração rápida das contas, que apresenta um
cenário no qual você terá de aposentar-se após os 70 anos, ou receber um
valor irrisório perto daquilo que contribuiu.
3. A dívida pública brasileira deve sair de controle, com riscos até mesmo de calote.
O aumento
da dívida pública brasileira de 53% para 68% do PIB em apenas dois anos,
entre 2013 e 2015, acendeu um sinal de alerta. Com um déficit nominal
de 10,34% do PIB nos últimos 12 meses, a diferença entre o que o governo
arrecada e o que ele gasta cresce cada dia mais, em boa parte pois o
custo de financiar a dívida tem subido junto.
Para o
mercado, a dívida pública deverá chegar em 2018 em 80% do PIB.
Considerando o custo de refinanciar esta dívida, temos uma situação mais
dramática do que a tragédia grega de poucos anos antes. Enquanto a
Grécia teve de financiar sua dívida de 170% do PIB com juros de 4% a.a.,
refinanciamos a nossa com juros um pouco acima dos 14,25%.
Atualmente,
cerca de R$ 1 trilhão, ou 35% da dívida total, possui um prazo menor do
que 7 meses. São as chamadas “obrigações compromissadas” do Banco
Central. O resultado disto reside no fato de que o BC, ao praticar este overnight,
requer cada vez mais recursos para refinanciar a dívida, exaurindo a
capacidade do mercado, reduzindo o crédito na economia e elevando o
custo.
Enfrentando
um déficit primário, a capacidade do governo de combater o déficit tem
sido cada dia mais limitada. Inclua-se na conta os erros do Banco
Central em tentar controlar o câmbio, que causaram prejuízos de R$ 110
bilhões entre 2014 e 2015, e o resultado será uma dívida fora de
controle.
O cenário
preocupante leva analistas como o banco Goldman Sachs a cogitarem algo
até pouco tempo atrás bastante improvável: uma suspensão por parte do
governo do pagamento da dívida. Em outras palavras, um calote.
4. A carga tributária brasileira irá continuar subindo.
Atualmente
em 36% do PIB, a carga tributária possui alguns títulos – como o de
mais complexo do mundo. Para pagar impostos, os brasileiros dedicam
2.600 horas por ano, cerca de 2 vezes o tempo gasto pelo segundo
colocado, a Bolívia. Este número, porém, maior do que o de países como o
Canadá, é ainda insuficiente para garantir as determinações da
constituição ou mesmo pagar todas os gastos do governo.
Crescendo de
25,4% em 1994 para os atuais 36,3%, a carga tributária brasileira é
parte de um processo cada vez mais irreversível. A constituição atribui
ao governo diversas obrigações. Incapaz de cumprir tais funções, o
governo demanda cada vez mais recursos em uma ciranda cujo único
resultado é o aumento do custo deste mesmo governo.
Ainda que
nenhum centavo de imposto tenha sido destinado ao pagamento de juros nos
últimos dois anos, a situação fiscal brasileira está cada vez mais
comprometida, em função da própria recessão na economia. Cerca de 90%
dos gastos públicos federais são considerados irredutíveis. São
aposentadorias, transferências de renda e outros gastos cujo governo é
obrigado a corrigir, ainda que seja pela inflação. Sem poder reduzi-los,
os cortes no orçamento devem pesar sobre a parcela diminuta relativa a
investimentos em custeio, que representa cerca de 10% dos gastos totais.
Como os
gastos são rígidos por lei, mesmo com arrecadação em queda, há pouca ou
nenhuma esperança de que sejam diminuídos. E tal engessamento do
orçamento não para de crescer. Ao criar determinações para que % de
receitas advindas de royalties sejam destinados à educação ou saúde, o
Congresso torna cada vez mais o executivo um mero executor das
determinações orçamentários do Legislativo. O resultado é inevitável: um
governo não poderá abrir mão das receitas (ou seja: do aumento dos
impostos), pois não poderá cortar a maior parte dos gastos.
5. Os erros atuais e passados continuarão a ser repetidos no futuro, independente do quão politizados se tornem os cidadãos brasileiros.
Segundo
dados da OCDE, 2/3 dos países mais ricos do mundo chegaram a 2013,
último ano de dados disponíveis, com uma carga tributária menor do que
em 2000 – e a Suécia e o Canadá são os campeões em reduzir suas cargas
tributárias nesse período. Atualmente, a carga tributária canadense, um
país com índices socioeconômicos e infraestrutura muito superiores
à brasileira, é menor do que a carga tributária brasileira, em boa parte
pois os gastos com previdência no Canadá são quase irrisórios, uma vez
que a população local poupa recursos para sua aposentadoria.
Possivelmente
esta capacidade de se adaptar a cenários adversos da economia global,
onde cada vez mais bens e serviços migram em busca de locais mais
propícios à produção, seja o que torne tais países efetivamente
desenvolvidos. Nos últimos 10 anos, enquanto Brasil e Canadá
aproveitavam o ciclo de riqueza propiciado pelo aumento no preço de
produtos como minério de ferro ou a soja e o trigo, ambos traçaram
caminhos distintos. O Brasil elevou o consumo, enquanto o Canadá elevou a
poupança.
Apontar a
educação como a causa destas decisões, ou a capacidade de um povo de
discernir sobre a política, é algo tentador, mas via de regra renega o
fato de que cada país está preso ao seu próprio conjunto de regras.
Nada é tão
repetitivo no Brasil quanto o ciclo de governos reformistas, seguido
por governos gastadores e por último, governos que entram em crise. Você
provavelmente divida isto por presidentes. É possível vislumbrar FHC,
Lula e Dilma em cada uma destas posições, mas as coisas são um pouco
mais profundas. Lula em seu primeiro mandato foi possivelmente o
presidente que mais seguiu as normas fiscais apontadas como ideais pelo
FMI – em resumo: superávit primário elevado, inflação sob controle e
câmbio flutuante.
Os bons
resultados com esta política, porém, não impediram que ao substituir
Palocci por Mantega, os rumos da economia se invertessem. A tentação de
um presidente em gastar alinhada à tentação de uma população em apoiar
medidas que elevem o crédito e o consumo sempre serão difíceis de
resistir, pouco importando questões subjetivas como a educação.
Em suma,
não se trata de eleger bons ou maus políticos, mas obedecer aos
incentivos dos eleitores que punem ou mal avaliam governos reformistas e
aplaudem governos gastadores. São esses eleitores, e os seus filhos,
quem pagarão a conta no final.
EXTRAÍDADESPOTINIKS.COM





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