por Ruy Fabiano Com Blog do Noblat - O Globo
Aparentemente, funcionou, já que governou São Paulo por três vezes (uma
como interventor no Estado Novo, duas eleito), foi prefeito da capital e
candidato à presidência da República, além de manda-chuva da política
paulista entre as décadas de 30 e 60.
Foi cassado três vezes, a última e definitiva após o golpe de 64, que
apoiou. Mas essa é outra história. Importa notar que, se o fato de
“fazer” anulava o de “roubar”, e lhe garantia destaque, é porque havia
coisa pior: a turma que roubava e não fazia.
Outro personagem histórico já falecido, o ex-ministro Mário Simonsen,
dizia que essa modalidade – o do “rouba e não faz” -, ao contrário, era
menos nociva. Segundo ele, algumas obras, de tão caras e inúteis, melhor
seria não fazê-las, calculá-las e pagar por elas uma propina
hipotética.
O PT, ao que parece, levou a blague a sério: parte substantiva do que a
Lava-Jato tem revelado são obras inconclusas, embora caríssimas, com o
custo inicial (e a respectiva propina) várias vezes aumentado. Entre
outras, a refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, as do Maranhão,
Ceará, Duque de Caxias (RJ) e a emblemática de Pasadena, EUA.
O PT, porém, além de incorporar ambas as vertentes – a do roubo de
resultados e o sem resultados -, inaugurou uma nova: a dos que roubam,
fazem, mas fazem tudo errado, sendo esta, de todas, a pior, por seus
efeitos colaterais e duradouros.
O resultado é a crise que aí está, a maior das últimas quatro décadas, a
que não faltaram crises. Pior: não está convencido do que fez, o que
põe em cena o dito do Barão de Itararé, crítico mordaz da ditadura
Vargas, segundo quem “o problema do governo não é a falta de
persistência, mas a persistência na falta”.
Ao celebrar, seus 36 anos, há pouco mais de duas semanas – o que, diante da vertiginosa sucessão de denúncias da Lava Jato parece uma eternidade -, o partido divulgou, em tom triunfal, o seu Programa Nacional de Emergência, com a autoridade de quem, no fim das contas, criou a emergência.
Ao celebrar, seus 36 anos, há pouco mais de duas semanas – o que, diante da vertiginosa sucessão de denúncias da Lava Jato parece uma eternidade -, o partido divulgou, em tom triunfal, o seu Programa Nacional de Emergência, com a autoridade de quem, no fim das contas, criou a emergência.
Já então cogitava da volta de Lula. Houve quem, na sua espessa
ingenuidade, acreditasse que, sendo o partido o autor da crise, poderia
dispor do remédio para erradicá-la. Só que, em vez de propor cura,
receita ao doente uma eutanásia.
A tanto equivale o Programa. Entre outras coisas, propõe o uso de parte
das reservas internacionais para a criação de um Fundo Nacional de
Desenvolvimento e Emprego, a “radicalização” dos mecanismos de
distribuição de renda (o que será isso?), a taxação das grandes
fortunas, a redução “drástica” da taxa de juros e a volta da CPMF,
compartilhada entre União, estados e municípios (para tentar atrair o
apoio de prefeitos e governadores).
Em resumo, a mesma receita que gerou a crise, só que elevada ao cubo,
oposta à que o governo, com os cofres vazios, e ainda com um resto de
bom senso, estava a sustentar.
Reforma da Previdência? Nem pensar. Contenção do consumo? Ora, ora, a crise é invenção das elites.
Reforma da Previdência? Nem pensar. Contenção do consumo? Ora, ora, a crise é invenção das elites.
Havia, porém, um problema: o partido não confiava em Dilma – nem ela
nele - e queria a cabeça da equipe econômica, além de um ministro da
Justiça que controlasse a Polícia Federal.
A solução mágica foi chamar Lula, matando assim dois coelhos numa só
cajadada: reanimar a militância e garantir asilo ao ex-presidente, neste
momento às voltas com a Polícia Federal e o Código Penal. Nem uma
coisa, nem outra banirá a crise.
A reação popular à nomeação de Lula turbinou o processo de impeachment e
devolveu a população às ruas. O país não está dividido, conforme
mostram as pesquisas, em que mais de 90% pedem o fim do governo. Está,
pois, unido – e contra.
O PT – e haja persistência na falta – insiste em que o povo não
compareceu às manifestações, só “as elites”. No documento em que
convocou a militância à manifestação de ontem, diz isso.
E explicita: “Solicitamos que os diretórios estaduais convoquem em
caráter de urgência para o dia 18 de março todos os sindicatos,
militância e, se necessário, convoquem militantes nas periferias, de
preferência negros e pardos, sendo que foi autorizado o transporte,
alimentação e o repasse de R$ 30,00 (trinta reais) para auxílio aos
militantes”.
Trata-se de documento autoexplicativo que resume uma Era de abjeções e fracassos.
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