e outras cinco notas de Carlos Brickmann Com Blog do Augusto Nunes - Veja
Dilma pensava em salvar seu governo tirando o gênio da garrafa. Mas, fã
de Alice no País das Maravilhas, não conhece as Mil e Uma Noites. Nos
tempos de Ali Babá, os tesouros ficavam numa caverna, que se abria com a
senha Abre-te Sésamo. Hoje, os 40 ladrões se multiplicaram. Os tesouros
ficam num cofre de banco ou num sindicato e parte é alopradamente usada
para comprar silêncios. Mas quem vende silêncio costuma delatar os
compradores para sair da cadeia.
O problema, para o governo, é que as delações saem aos poucos. Se todas
surgissem ao mesmo tempo, daria para inventar uma história boa, que
arrumasse os fatos. Não está dando: inventa-se uma história bonitinha,
eu não sabia, a casa era emprestada, toma que o filho é teu, e aí surge
nova delação, desmentindo tudo. As denúncias de Delcídio, agora
liberadas, são de arrepiar. E atingem, com gravação e tudo, o mais fiel
dos fiéis, Aloizio Mercadante. Na sexta, quando Dilma disse que ia
renun…, quer dizer, que não ia, ou sabe-se lá, quem era o único ministro
a seu lado? Ele: Aloizio Mercadante. Que propôs a um assessor de
Delcídio tudo o que fosse pedido, em troca de não haver delação
premiada. Algum promotor mal-humorado pode entender isso até como
obstrução à Justiça.
Delcídio cita Lula, Dilma, políticos do PP, PMDB, PT, PTB. E Delcídio
pode ser fichinha: o deputado federal Pedro Corrêa, do PP, também
decidiu falar. É do ramo, sabe como as coisas são feitas. Ele nunca quis
aparecer: nomear e dividir, era disso que gostava. Pelo jeito, a
Federal terá de importar japonês.
Aloprem-se
Lula deve favores a Mercadante – que, entre outras coisas, desistiu de
uma eleição garantida para a Câmara Federal para ser vice de Lula, que
não tinha chance. Mas, apesar disso, Lula não quer Mercadante por perto.
Considera-o afoito, incapaz de um projeto que dê certo.
Foi Lula que chamou a equipe de Mercadante de “os aloprados” numa
eleição estadual, em que José Serra já estava eleito. Os petistas
acharam que valia a pena comprar um dossiê falso contra ele e foram
apanhados.
Por pouco não atrapalharam a reeleição de Lula em 2006.
Recordando
Pedro Corrêa está condenado a 20 anos e sete meses de prisão (e preso
desde 10 de abril do ano passado), por recebimento de propina de R$ 11,7
milhões, 72 crimes de corrupção passiva, mais 328 operações de lavagem
de dinheiro.
Mercadante, antes de buscar o assessor de Delcídio, tentou contato com a
família do senador. Mas a esposa Maika recusou qualquer conversa com
ele. Desde o início, irritada com o comportamento dos antigos
companheiros de Delcídio, que o abandonaram, defendia que o marido
optasse pela delação premiada.
Prevendo
Não dá para jurar que o autor dessas frases seja o citado. Mas é de
ambos que me lembro. De Pedro Malan, ministro da Fazenda: “No Brasil,
até o passado é imprevisível”. De Joelmir Beting, um dos maiores
jornalistas do país: “Prognóstico bom só depois do jogo”.
Mas arrisquemos: Lula pode ir (ou não) para o governo. Mas não irá nem
para a Fazenda nem para a Casa Civil, porque as empreiteiras e os amigos
ainda não terminaram de reformá-las. Se for para o governo, e der
certo, teremos, como nunca dantes neste país, uma ex-presidente em
exercício (todas as manhãs, alguns quilômetros de bicicleta). Se não der
certo, teremos dois ex-presidentes em exercício, até que o vice Temer
os convide a descansar.
Vale tudo
A entrada de Lula no governo é a última tentativa de sobrevivência de
Dilma. Lula sem dúvida é politicamente mais competente do que ela e
qualquer dos seus ministros. Pode fazer algumas indicações interessantes
– uma boa aposta seria Henrique Meirelles, que foi seu presidente do
Banco Central, para o Ministério da Fazenda – isso se ele estiver
disposto a aceitar as teses de Meirelles, que não assumirá pasta nenhuma
para perder sua reputação.
Mas os riscos são altíssimos: primeiro, a discussão jurídica, se a
nomeação tem ou não o objetivo de salvá-lo do juiz Sérgio Moro; segundo,
a superexposição a que ficam submetidos sua esposa e três de seus
filhos, que não têm foro privilegiado; terceiro, os resultados a curto
prazo. Lula assumiu em 2003 como esperança e hoje está longe de ter o
apoio de que já desfrutou. E, alvo de delação premiada (Delcídio o
aponta como responsável por providências que podem causar problemas),
sobreviverá?
O PMDB como é
OK, o PMDB decidiu, mais ou menos, afastar-se de Dilma, mas deu 30 dias
de prazo para efetivar o rompimento – em outras palavras, espremer o
resto do leite das tetas quase secas do governo. Ninguém precisa deixar
seu cargo até lá.
Em compensação, nenhum membro do partido pode aceitar um convite –
menos, naturalmente, o deputado Mauro Lopes, que esperava há tempos ser
nomeado ministro da Aviação Civil. Como não disse Sua Excelência, o PMDB
sempre lutou por cargos; vai mudar justo quando a vez dele chegou?
Então, tudo bem, nada de inflexibilidade.
E, se mais cargos houver, mais exceções haverá.
extraídaderota2014blogspot





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