Paulo Guedes: O Globo
O cálculo político de curto prazo prevaleceu sobre a necessidade de
ajustes fiscais de longo prazo da economia brasileira. É o que revela o
imprevidente aumento de salários do funcionalismo público quando desabam
as arrecadações em meio à grande recessão e às demissões em massa no
setor privado. Mesmo enquadrados nos limites propostos para o controle
da expansão das despesas federais, os aumentos salariais são
interpretados como sinais de frouxidão fiscal, esperteza política e
endosso à reindexação dos salários.
Está configurada a estratégia de Temer. Até o enterro da presidente
afastada, “bondades” calculadas como essa e nenhuma “maldade” que possa
ameaçar de fratura sua base de sustentação parlamentar. Aprovado o
impeachment, seriam encaminhadas ao Congresso propostas de emendas
constitucionais que permitissem o controle do crescimento das despesas
federais, como uma nova idade mínima para a aposentadoria.
Reformas de marcos regulatórios estimulariam a retomada dos
investimentos. As privatizações, as concessões e os desinvestimentos
para redução da dívida seriam importantes ferramentas para garantir uma
trajetória sustentável do endividamento do setor público. Temos ainda
mais de dois anos à frente para a recuperação do equilíbrio fiscal, a
recondução da taxa de inflação à meta dos 4,5% anuais e a retomada do
crescimento econômico. É com esse grande enredo em mente que o governo
teria recorrido à esperteza de pacificar o funcionalismo público federal
em seu ato de inauguração.
O problema dessa estratégia é a dúvida que suscita quanto ao compromisso
do governo com a prioridade absoluta do controle de gastos públicos.
Pois, se é verdade que seu risco de transitoriedade recomendou a cautela
de não submeter ainda ao Congresso a reforma da previdência, evitando
fraturar seu apoio político com uma “maldade”, deveria ter reafirmado
seu compromisso com o controle de gastos adiando também qualquer
“bondade” que agrave o desequilíbrio fiscal. Com gastos públicos da
ordem de 45% do PIB, a medida inaugural de reajustes do funcionalismo
sinaliza juros elevados, mais impostos, reindexação salarial, inércia
inflacionária e maior taxa de desemprego. A esperteza política
compromete a credibilidade do governo na defesa do ajuste fiscal.
extraídaderota2014blogspot





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