Rogério Furquim Werneck: O Globo
Argumentos brandidos pelo advogado-geral da União não se sustentam
Mal terminada a votação na Câmara no domingo, o advogado-geral da União,
José Eduardo Cardozo, voltou a arguir que não há base legal para o
impeachment. Embora Cardozo seja articulado e tenha boa retórica, seus
argumentos não se sustentam.
Basta ter em conta como contesta que “pedaladas fiscais” sejam razão
válida para pedido de impeachment. O que, em suma, alega Cardozo? Que,
por não configurarem concessão de crédito ao Tesouro, as “pedaladas” não
constituem violação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
Que não houve sanção a “pedaladas” em governos anteriores. Que não houve
má-fé da parte da presidente Dilma, ao recorrer às “pedaladas”. E que é
inaceitável que Dilma seja submetida a processo de impeachment por
meras “questões contábeis”, sem que nada tenha sido apontado contra sua
honestidade.
Cada uma dessas alegações merece reparos.
Operações de crédito — Cardozo argui que já teria demonstrado claramente
que as “pedaladas” foram simples atrasos em contratos de prestação de
serviços com instituições financeiras federais, e não operações de
crédito.
Trata-se de alegação estapafúrdia, que de nenhuma forma poderia ser
“demonstrada”. O que Cardozo tem feito é simplesmente repetir ad nauseam
essa alegação, na vã esperança de que acabe aceita como verdade. Não há
como complicar o que é óbvio.
Ao permitir que as instituições financeiras federais continuassem a
fazer pagamentos em seu nome, por meses a fio, sem lhes transferir
recursos suficientes para custeá-los, o governo aceitou que tais
instituições concedessem crédito ao Tesouro, em flagrante violação da
LRF.
Governos anteriores — O argumento de que não houve sanção a “pedaladas”
em governos anteriores não pode servir de justificativa para as
proporções acintosas que essa violação assumiu no governo Dilma. Dados
do Banco Central mostram que, em novembro de 2015, a dívida acumulada
pelo governo federal com suas instituições financeiras e com o FGTS,
medida em proporção do PIB, era 30 vezes maior que a observada no final
do primeiro governo Lula.
Má-fé — O argumento de que não houve dolo nas “pedaladas fiscais” é um
escárnio. As “pedaladas” foram parte de uma operação ampla e concertada
de dissimulação da deterioração do quadro fiscal.
O empenho em falsear o registro das contas públicas, a partir do segundo
mandato de Lula, atingiu seu ápice na campanha eleitoral de 2014,
quando o governo fez uso deliberado do crédito dos bancos federais ao
Tesouro para impedir que o eleitorado percebesse a tempo a extensão da
devastação das finanças públicas.
Quando os danos foram afinal percebidos, a presidente Dilma já estava
reeleita e empossada. E, graças a esse ilusionismo, Dilma ainda
atravessaria o primeiro semestre de 2015 fingindo que poderia cumprir
uma meta fiscal de 1,2% do PIB, quando, na verdade, já havia iniciado o
ano com um estoque de dívidas de “pedaladas” da ordem de 1% do PIB.
Dívidas que per- maneceram em aberto até dezembro, em ostensiva violação
da LRF.
Honestidade — Tão zeloso em defender que seja escoimada do julga- mento
de Dilma qualquer alegação distinta das duas razões aceitas pelo
presidente da Câmara para acatar o pedido de impeachment, Cardozo não
viu dificuldade em lamentar que Dilma esteja ameaçada de impeachment por
meras “questões contábeis”, sem que nada tenha sido levantado contra
sua honestidade.
Ser Dilma honesta ou não é questão que não vem ao caso na discussão das
“pedaladas”. Foge inteiramente ao tópico. Mas já que o advogado-geral da
União quis levantá-la, não custa lembrar que a campanha da reeleição,
em 2014, foi uma das mais desonestas da história eleitoral do país. E
que as “pedaladas” tiveram papel crucial nesse surto de desonestidade.
Mas talvez a intenção da defesa da presidente fosse fazer alusão a uma
noção bem mais restrita de honestidade. Nesse caso, pode ter faltado
precaução. O processo de impeachment deve demorar meses. E, até lá,
muita água da Lava-Jato deverá passar por debaixo da ponte.
extraídaderota2014blogspot





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