André de Souza - O Globo
Segundo Celso de Mello, é equívoco gravíssimo comparar as duas coisas
Os ministros Celso de Mello e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal
(STF), refutaram a tese da presidente Dilma Rousseff de que o processo
de impeachment aprovado na Câmara dos Deputados é, na verdade, um golpe.
Celso e Gilmar observaram que o processo seguiu a Constituição e as
regras definidas pelo próprio STF. O ministro Celso, o mais antigo do
tribunal, chegou a dizer que é equívoco gravíssimo falar em golpe, e que
será estranho se a presidente for ao exterior defender esse argumento. Dilma embarca quinta-feira para Nova York, onde deverá fazer uma defesa do seu governo na Organização das Nações Unidas (ONU).
— O fato é que a Câmara dos Deputados respeitou os cânones estabelecidos
na Constituição. O procedimento preliminar instaurado na Câmara dos
Deputados, disse o Supremo Tribunal Federal pelo menos duas vezes em
julgamento público, mostra-se plenamente compatível com o itinerário que
a Constituição traça a esse respeito. Portanto, ainda que a senhora
presidente da República veja a partir de uma perspectiva eminentemente
pessoal a existência de um golpe, na verdade, há um gravíssimo equívoco,
porque o Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados e o Supremo
Tribunal Federal deixaram muito claro que o procedimento destinado a
apurar a responsabilidade da senhora presidente da República respeitou
até o presente momento todas as fórmulas estabelecidas na Constituição.
Até agora transcorreu tudo em perfeita ordem — disse Celso.
— Eu digo que é um gravíssimo equívoco falar em golpe. Falar em golpe é
uma estratégia de defesa. O que eu estou dizendo, estou dizendo a partir
do que nós, juízes da suprema corte, dissemos nos julgamentos já
ocorridos. Na verdade é um grande equívoco reduzir-se o procedimento
constitucional de impeachment à figura do golpe de Estado — acrescentou o
ministro.
Questionado sobre a possibilidade de Dilma usar seu discurso na ONU para denunciar a existência de um golpe no Brasil, Celso respondeu:
— Eu diria que é no mínimo estranho esse comportamento, ainda que a
presidente da República possa em sua defesa alegar aquilo que lhe
aprouver. A questão é saber se ela tem razão.
Gilmar Medes concordou.
— Eu não sou assessor da presidente Dilma nem posso aconselhá-la. Mas
todos nós que temos acompanhado esse complexo procedimento no Brasil,
podemos avaliar que se trata de procedimentos absolutamente normais
dentro do quadro de institucionalidade. Inclusive as intervenções do
Supremo que determinaram o refazimento até de comissões no Congresso
Nacional, na Câmara dos Deputados, indicam que as regras do Estado de
Direito estão sendo observadas — afirmou Gilmar.
No fim de março, o ministro Marco Aurélio Mello, concordou com o argumento da presidente Dilma de que, se o impeachment for calcado em fatos que não configurem crime de responsabilidade, ocorrerá um golpe.
— Acertada a premissa, ela tem toda razão. Se não houver fato jurídico
que respalde o processo de impedimento, esse processo não se enquadra em
figurino legal e transparece como golpe — afirmou Marco Aurélio, antes
do julgamento do impeachment na Câmara.
NOTA DE PARTIDOS REJEITA TESE DO GOLPE
Na terça-feira, 14
partidos, coordenados pelo PMDB, divulgaram nota em conjunto na qual
rejeitam o argumento de que o processo de impeachment seja um golpe. No texto, as legendas criticam a presidente Dilma de se colocar em posição de vítima.
“A Sra. Presidente da República insistiu no erro de tachar de “ilegal” e
“golpista” a ação dos senhores deputados, omitindo propositadamente que
o rito do impeachment foi determinado pelo Supremo Tribunal Federal,
nos julgamentos das inúmeras e frustradas tentativas de seu governo de
impedir a atuação do poder legislativo. O Impeachment foi chancelado
pela Suprema Corte do Brasil”, diz a nota.
“A Sra. Presidente da República desconsidera que está sendo acusada de
ter cometido um dos maiores crimes que podem ser praticados por uma
mandatária, já que a vítima, no caso, é toda a nação. Para defender-se
ela inverte sua posição de autora em vítima”, afirmam os partidos.
extraídaderota2014blogspot





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