editorial de O Globo
A União patrocinou um forte
ataque ao equilíbrio das contas, a ponto de se discutir o impeachment de
Dilma, mas a Justiça e o Legislativo não ficam atrás
O princípio da responsabilidade fiscal é atacado, no campo político,
desde a instituição da Lei de Responsabilidade (LRF), em 2000, na parte
final do segundo mandato de FH.
O PT e aliados sempre combateram o conceito, por considerá-lo
“neoliberal”, e até o PSDB, no enfrentamento do governo Dilma tem
apoiado no Congresso propostas contrárias à necessidade de algum
equilíbrio entre receitas e despesas como base para a prosperidade,
apenas para atazanar o Planalto.
Se no Brasil a ideia de responsabilidade fiscal sempre transitou com
dificuldades — daí os surtos de populismo seguidos de ajustes —, a regra
chegou ao paroxismo a partir do segundo mandato de Lula e no primeiro
governo de Dilma, quando o descuido militante com as contas públicas
gerou a atual crise, forte candidata a rivalizar em gravidade com a
verificada a partir da Grande Depressão, em 1929/30.
A ponto de ser votado no Congresso um processo de impeachment contra a
presidente. Mas a cultura da irresponsabilidade fiscal, certamente pelo
impulso recebido no governo federal, tem se mostrado mais densa e ampla
do que se poderia imaginar. E ela permeia não apenas os poderes
Executivo e Legislativo.
Também o Judiciário terminou contaminado por esta visão permissiva do
Erário. Não há outra explicação para o fato de o plenário do Supremo
Tribunal Federal (STF) ter concedido liminar, na semana passada, a fim
de que a dívida do estado de Santa Catarina com a União não seja
corrigida, como é usual, por juros compostos, mas simples. Pior, a
benesse já foi estendida ao Rio Grande do Sul e Minas. Parece um
detalhe, mas esta benevolência com o dinheiro do contribuinte
representará um peso adicional sobre um Tesouro já quebrado de mais de
R$ 310 bilhões, caso a Federação aproveite a brecha que o STF abriu nos
contratos de dívidas públicas. Mais de dez estados se tornariam credores
da União.
Esta explosão fiscal — enquanto o país é pressionado por um déficit
público monstruoso de 10% do PIB — se soma a outros absurdos que
tramitam no Congresso, em torno da benevolente renegociação de dívida de
estados e grandes municípios proposta pelo fragilizado governo Dilma,
sequioso de votos contra o impeachment.
Aproveitando este balanço de forças negativo para o Planalto, o
Congresso começou a reduzir as contrapartidas exigidas pelo governo
federal para renegociar as dívidas — não conceder reajustes reais aos
servidores por determinado período, corte de outros gastos em custeio
etc.
O desmonte do que resta de responsabilidade fiscal é mais amplo. Há até
um projeto, da Agenda Brasil, do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que
livra de punições da Lei de Responsabilidade prefeito que descumpra o
limite das despesas com pessoal, caso tenha havido redução nos repasses
do Fundo de Participação. Mais uma dinamite para implodir as contas
públicas.
O momento é histórico não apenas devido ao processo de impeachment. Mas
também pelo pano de fundo de anarquia fiscal misturada com insegurança
jurídica, pois a revisão da norma usual de incidência dos juros abala
todo o mercado financeiro.
extraídaderota2014blogspot





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