por Sandro Vaia Com Blog do Noblat - O Globo
A que ponto chegamos.
Aposto que você já ouviu essa frase em algum lugar que frequenta, ou na
conversa com um amigo, um parente, um vizinho. Ou até mesmo na TV, na
voz de um ministro do Supremo.
O que nós estamos vivendo aqui neste momento guarda alguma semelhança
com a “teoria da janela quebrada” (broken windows theory), que é o
resultado de um estudo realizado por dois professores de Harvard - um
cientista político e um psicólogo criminologista - mostrando que há
relação de causalidade entre desordem e criminalidade.
Em resumo, a tese é a seguinte: se uma janela do apartamento de um
prédio quebrar a não for consertada imediatamente, as pessoas são
levadas a crer que aquele apartamento está abandonado, já que ninguém se
importa com ele, e esse abandono incentiva depredações de outras
janelas, mais atos de vandalismo e até invasão do prédio.
Ou seja: quem não se preocupa com pequenos atos de marginalidade acaba
sendo cada vez mais tolerante com a criminalidade em todos os seus
estágios. Até que ela se instale definitivamente.
A confusão entre pequenos e grandes crimes acaba provocando uma perda de
referência por onde se infiltra e se instala esse vírus de amoralidade,
essa anomia que destrói os nervos e que corrói a alma do país.
Achar graça numa estrela vermelha que a primeira dama instala no jardim
do Palácio da Alvorada é o primeiro vidro da janela quebrada.
Desconhecer o que significa a promiscuidade entre público e privado,
entre governo e partido, entre governo e Estado, entre Estado e partido,
pode parecer uma minúcia, uma ridicularia, mas não é. Pelo menos em
países sérios não é.
Quebrado a primeira janela, passa-se a zombar dos pequenos delitos, como
se eles não fossem a pura ressonância dos delitos maiores: ah, o
pedalinho dos netos do ex-presidente, ah, a canoa baratinha da dona
Marisa, ah, o elevador privativo do tríplex do Guarujá.
Quanta implicância desses coxinhas, como se fosse normal alguém receber
benesses de empreiteiras que vivem de contratos públicos e como se fosse
normal recusar-se a prestar depoimentos solicitados pela Justiça sobre
eles.
Perdido o referencial daquilo que separa a bravata ideológica do crime
puro e simples, acontece isto: um sindicalista de nome Armando Tripodi,
que foi chefe de gabinete do presidente da Petrobras entre 2003 e 2012,
nas gestões José Eduardo Dutra e José Sergio Gabrielli, publica no site
oficial da Petrobras a confissão de um crime e nada acontece com ele.
Talvez tenha até sido elogiado pelo companheiro-chefe.
Num depoimento ao site institucional “Memória Petrobras” ele conta que
usou o dinheiro do imposto sindical para fazer campanha para o
companheiro Lula, e narra, cheio de orgulho, todos os lances de seu
heroico crime. É proibido por lei usar dinheiro do imposto sindical para
campanhas políticas, mas quem se lixa?
Se a janela está quebrada, o prédio está abandonado e tudo é permitido.
Da janela quebrada ao pântano moral em que o País mergulhou, a distância
é mínima. Princípios morais não têm peso, nem largura, nem altura, nem
espessura. Ou existem ou não existem.
A delação premiada de Delcídio do Amaral mostra não apenas que a janela
está quebrada. Mostra que o prédio já ruiu em cima do governo, e mesmo
que ele sobreviva, está irremediavelmente ferido de morte.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





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