EDITORIAL VALOR ECONÔMICO
Em breve, serão sacramentadas as delações premiadas do ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, e de executivos de várias empreiteiras. Elas seguramente não melhorarão a situação do PT e seu governo, e têm potencial para provocar terremotos nos demais partidos, em especial no PMDB. O caráter agudo da crise política se revela no fato de que a terra treme em volta dos protagonistas principais de um eventual desfecho, como Michel Temer e Renan Calheiros, que estão com a cabeça a prêmio na Justiça, da mesma forma que Eduardo Cunha, o presidente da Câmara que deverá reiniciar o processo de impeachment. Sozinha, a oposição (PSDB e DEM) não tem condições de definir o rumo desse processo.
Com marcada aversão a políticos e partidos, a mobilização das ruas, ao fechar o foco em "Fora Dilma" e "Fora PT", deu carta branca aos partidos no Congresso para que façam todo o possível para tirar a presidente Dilma do Planalto. PMDB e PSDB se aproximaram com essa finalidade na semana passada. Esse acordo não é fácil, porque a outra face da crise, a econômica, lega um pesado ônus político a quem quer que seja o sucessor de Dilma. As diferenças no ambiente político são gritantes caso ele seja Michel Temer ou alguém sagrado pelas urnas em novas eleições, caso a chapa Dilma-Temer seja cassada pelo TSE.
Ajustar as contas públicas e criar condições para a volta do crescimento exigirá medidas duras e um tempo para que tenham efeito que contraria o calendário eleitoral. Ou então, a saída seria um tratamento de choque, que exigiria um mandatário com credibilidade e prestígio políticos que só uma nova eleição poderá dar.
Se o vice-presidente Michel Temer parar em pé, terá o apoio da oposição para ir em frente com o ajuste fiscal, limpando o terreno para os tucanos que, em tese, são a bola da vez. O que o PMDB ganharia fora a promessa de uma nova vice-presidência em um eventual governo do PSDB não é certo - e pode não ser desejável.
Há outros cursos possíveis que não encaminham uma solução para a crise. Se o rito do impeachment, ou os julgamentos que envolvem a presidente, se arrastarem até 2017, e ela for afastada, caberá ao Congresso - quem sobrar nele - escolher o sucessor por via indireta. O escolhido faria um mandato tampão sem força para ousadias.
Há poucas chances de a presidente Dilma se manter no cargo. Pode fazê-lo como "rainha da Inglaterra" em um "semiparlamentarismo", a "semi-qualquer coisa" com o qual se reduziria, não se sabe como, o poder da Presidência. Dilma não aceitaria jogo. Ou pode ganhar força suficiente para pelo menos terminar seu governo, recompondo sua base política, o que parece hoje uma missão impossível. A crise é tão violenta que fez até o PMDB decidir em convenção pelo impensável no imaginário da legenda: recusar cargos no governo.
Está claro que por suas próprias forças o governo Dilma é incapaz de virar o jogo a seu favor. É o que torna plausível a surreal entrega de um ministério a Lula, ação politicamente desmoralizante e de altíssimo risco, mas talvez a única, para vários petistas, que poderia salvar um governo moribundo. Dilma sairia fortalecida também na hipótese de Lula e o PT mobilizarem multidões semelhantes às do último domingo. Após perder o domínio das ruas desde junho de 2013, parece difícil que esse seja um caminho onde a estrela do partido volte a brilhar.
Lula no governo será o verdadeiro presidente e só teria alguma chance de sucesso se abandonasse as ideias que vem dando guarida para estimular a economia, que só aprofundariam a recessão. Foi o que fez em 2002, ao adotar medidas ortodoxas que foram bem-sucedidas. Alvo de suspeitas e símbolo do PT, sua mudança para Brasília lhe daria foro privilegiado, sob risco de provocar mais e maiores mobilizações que poderiam acelerar o fim do governo e por encerrar sua carreira política com um triste epílogo.
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