Aécio Neves:Folha de São Paulo
A maior festa popular do Brasil está no seu auge e não cogito azedar a
folia de ninguém. Os brasileiros merecem se divertir e mostrar ao mundo a
sua criatividade e alegria.
Quem é capaz de organizar uma festa com esta dimensão, envolvendo
grandes eventos de rua, desfiles hollywoodianos e doses infindáveis de
talento e originalidade é uma gente acostumada a ver a vida com olhos de
esperança e otimismo. É uma gente que não se intimida com as
adversidades, que empreende com coragem e que põe o bloco na rua, faça
chuva ou faça sol.
Esse Brasil vibrante e colorido bem poderia inspirar o ano que
prossegue, tão logo se esvaziem as passarelas. Já na quarta-feira
teremos de nos ver diante de uma realidade que não enseja grandes
celebrações. Não bastasse o sofrimento com a epidemia ditada pelo
mosquito Aedes aegypti, o cenário econômico e social se revela ainda mais sombrio.
A indústria teve o seu pior desempenho em mais de uma década. Sem
confiança, os empresários estão deixando de investir nas fábricas e
máquinas que sustentam o crescimento. A produção mensal de veículos, por
exemplo, caiu para o menor nível desde 2003. A recessão fechou 1,5
milhão de postos de trabalho. Com a inflação no calcanhar, viver ficou
bem mais caro. A cesta básica já custa grande parte do salário mínimo de
um trabalhador. Endividados, os brasileiros promoveram, em janeiro, a
maior retirada de recursos da poupança em 20 anos.
E diante do país que desmorona, o que faz o governo?
Cumprindo os ritos institucionais, a presidente da República foi ao
Congresso falar de suas propostas para o ano. Infelizmente, de novo uma
retórica vazia e pouco crível. A presidente claramente não tem nada a
propor, além de pedir a volta da CPMF e acenar com um esboço de reforma
da Previdência,
imediatamente contestadas pelo seu próprio partido.
Não podemos nos conformar com a paralisia e a indecisão que caracterizam
o governo, incapaz de apresentar à nação um caminho viável para a
superação da crise que ele mesmo criou. É preciso agir.
O momento agora é de Carnaval. Tão logo cesse a folia, temos um encontro
marcado com o Brasil real, escasso de alegrias. É nesse contexto que
devemos alinhar forças e responsabilidades para construir uma agenda de
trabalho capaz de mobilizar o país. Não podemos nos acomodar.
Em tempo:
Comovente e esclarecedora a reportagem da Folha em Pernambuco
sobre os casos de microcefalia ligados ao vírus da zika. O trabalho dos
repórteres expondo o drama de mães e filhos desamparados pela falta de
assistência mostra o quanto ainda estamos distantes de assegurar às
famílias o mínimo suporte para enfrentar a tragédia. O Brasil tem a
obrigação de fazer muito mais.
extraídaderota2014blogspot





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