por João Pereira Coutinho Folha de São Paulo
Carnaval no Brasil e eu penso: o que aconteceria no país se Dilma
Rousseff recebesse o presidente iraniano Hassan Rouhani? Será que os
desfiles seriam cancelados? Ou a festa seguiria na mesma, embora com as
mulheres vestidas de burca em pleno sambódromo?
Difícil dizer. Hoje, é difícil dizer qualquer coisa. No momento em que
escrevo, a Europa ainda discute se a atitude do governo italiano em tapar as estátuas de nus nos Museus Capitolinos, em Roma, foi a mais acertada para receber Rouhani.
Instintivamente, diria que não. E, com a minha toga profética,
acrescentaria que esconder o que fomos e somos, como cultura e memória, é
uma espécie de rendição civilizacional que só inspira repugnância, e
não respeito, no radicalismo islamita.
Mas posso estar errado. E, quem sabe, talvez a atitude do governo de
Matteo Renzi seja o primeiro passo para que os chefes de Estado da
Europa convertam os seus países no reflexo da cultura que os visita. Uma
espécie de "nós-não-temos-valores" porque respeitamos literalmente os
valores dos outros.
Se é esse o destino, prevejo vida dura (mas merecida) para os políticos europeus.
Começo pela mesa. Que atitude devem ter um presidente ou um premiê
europeus quando o visitante é africano e, legitimamente, exige cérebro
de macaco para o almoço?
O mesmo para um visitante asiático, que pode ser um bom garfo quando o
assunto é o pênis de qualquer quadrúpede, do touro ao cavalo, sem
esquecer testículos de um bom carneiro.
Pessoalmente, creio que as elites políticas europeias, por motivos de
cortesia, deveriam respeitar esses paladares e, claro, partilhar os
mesmos pratos.
Sem falar de casos mais radicais, como a tribo korowai. Em caso de
visita, um premiê como Matteo Renzi estaria disposto a dispensar os
falos do touro e do cavalo –e oferecer ele próprio os mantimentos
necessários, castrando-se em pleno jantar?
Estudiosos vários garantem que os korowai indonésios ainda apreciam o canibalismo em datas especiais.
E quem fala da mesa fala de adornos e vestuários. Se as mulheres-girafa
da Tailândia visitam Roma, não seria aconselhável que Renzi também
esticasse o pescoço com anéis de cobre –e, por razões médicas, ser
impedido de os tirar?
Se, pelo contrário, as mulheres são de uma tribo etíope, e não asiática,
um disco de madeira no lábio seria o mínimo para as receber e, na
medida do possível, beijar.
Finalmente, e como "grand finale", também imagino o dia em que o premiê
italiano recebe uma comitiva de esquimós. Em nome de um fraterno
multiculturalismo, o premiê deveria oferecer a sua própria mulher para
que o visitante tenha companhia e aquecimento noturnos. Como é da praxe
nas terras geladas do pessoal.
Se o destino da Europa é abrir os braços (e as pernas) a todas as
exigências multiculturais, o mínimo que se espera é que o faça
literalmente e sem discriminar.
extraídaderota2014blogswpot





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