O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), tem dado
sinais de que deseja celeridade no processo envolvendo o deputado André
Vargas (PT-PR) no Conselho de Ética. Alves é candidato ao governo do Rio
Grande do Norte e não interessa a ele ter a imagem atrelada à
morosidade em um processo de cassação. Segundo interlocutores do
peemedebista, o desgaste com o episódio Natan Donadon (sem partido-RO) —
preso no Complexo Penitenciário da Papuda por peculato e formação de
quadrilha — foi dissipado por não ser um ano eleitoral. Mas, agora, a
pressão das ruas será maior...
A pressa tem a ver apenas com a candidatura ao governo. Alves e Vargas
têm relação de cordialidade. O petista acompanhou o peemedebista em
jantares com deputados durante a campanha à presidência da Câmara em
2013, além de algumas viagens aos estados para cabalar votos conjuntos
para a Mesa Diretora.
Com a saída de Vargas do cargo de vice-presidente, abre-se a disputa
interna no PT. O grupo ligado ao petista paranaense escolheu o
ex-ministro da Secretaria de Relações Institucionais e deputado Luiz
Sérgio (PT-RJ) para o posto, que cabe ao PT por uma questão de
proporcionalidade. Já a cúpula petista e o Palácio do Planalto trabalham
para José Guimarães (PT-CE).
A presidente Dilma Rousseff quer diminuir o poder de influência do
grupo de Vargas, apontado como o responsável por parte da rebelião da
base e pela campanha “Volta, Lula”. (PTL)
As bravatas de um deputado enrolado
André Vargas desiste da licença de 60 dias e avisa que reassumirá o
mandato depois da semana santa. Investigado por quebra de decoro devido
ao envolvimento com doleiro preso pela PF, ele ameaça: "A casa vai cair
para alguns"
André Vargas renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara. Petista
enfrenta a processo no Conselho de Ética, que pode resultar na cassação
Alvo de disparos de aliados e de opositores nos últimos dias, devido às
relações suspeitas com o doleiro Alberto Youssef, preso na Operação
Lava-Jato, da Polícia Federal, o deputado André Vargas (PT-PR) não sairá
da linha de tiro e decidiu nova estratégia: partir para o ataque. Na
sexta-feira, ele desistiu da licença de 60 dias do mandato, apesar de
ter renunciado ao cargo de vice-presidente da Câmara, e avisou que
voltará ao Congresso depois da semana santa. Pelas redes sociais, o
petista afirmou que “se defenderá de cabeça erguida”. Em conversa com um
blog paranaense, do qual é colunista, reafirmou a disposição para
prestar esclarecimentos e deixou no ar uma ameaça. “Vou provar a minha
inocência. A verdade prevalecerá. Ainda não tive o direito à defesa,
mas, adianto, vou exercê-lo na plenitude. A casa vai cair para alguns”,
prometeu, sem dizer quem são esses “alguns”.
Vargas é um dos petistas mais influentes no Paraná e trabalhou
intensamente para eleger Gleisi Hoffmann (PT-PR) para o Senado, em 2010.
O PT paranaense já tinha decidido, há pouco mais de um mês — antes de
estourar a crise envolvendo o deputado —, que parlamentares com mandato e
postulantes à reeleição não participariam da coordenação de campanha de
Gleisi ao governo estadual. A decisão, agora, se mostra mais do que
sensata. Tanto ela quanto o marido, o ministro das Comunicações, Paulo
Bernardo, sabem que o tema será explorado pelo atual governador, o
tucano Beto Richa, candidato à reeleição. “Uma situação como essa nunca é
boa”, ponderou Gleisi.
Alberto Youssef: influência nos bastidores da política paranaense
“Ele (André Vargas) sempre foi trabalhador, mas também sempre foi
briguento. Conseguiu muito dinheiro para as prefeituras do interior do
Paraná. Deve ter apoiado mais ou menos 100 prefeituras”, disse ao
Correio o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR). O tucano, contudo, não
sabe dizer se o apoio financeiro decorre de possíveis ligações com o
doleiro Alberto Youssef. Segundo Hauly, a atuação do doleiro na política
paranaense remonta a 1996, quando ele teria ajudado a eleger prefeito
de Londrina Antonio Belinati, então no PDT, mesmo partido do governador
Jaime Lerner à época. De lá para cá, o prestígio de Youssef na política
local aumentou.
Atuação nos bastidores
Quatro anos depois dessa suposta atuação de Alberto Youssef nos
bastidores da política paranaense, Vargas era eleito, pela primeira vez,
vereador na mesma Londrina do doleiro. Em 2002, foi eleito deputado
estadual. No ano seguinte, o Congresso criou a CPMI do Banestado para
investigar as denúncias de evasão de divisas para paraísos fiscais entre
1996 e 2002 por meio de contas do Banco do Estado do Paraná
(Banestado). Na época, Youssef foi citado e acabou acertando um esquema
de delação premiada para aprimorar as investigações.
A CPMI foi relatada pelo deputado José Mentor (PT-SP). Mentor foi
extremanente criticado, sendo acusado pelos oposicionistas de ter criado
uma lista fictícia de indiciados para achacar suspeitos de envolvimento
com o esquema. Ele também foi autor de um projeto concedendo anistia a
todas as pessoas que enviaram dinheiro ilegalmente para o exterior.
Mentor hoje integra o grupo que dá apoio político a Vargas — eleito
deputado federal pela primeira vez em 2006 — dentro do PT. Na
quarta-feira passada, dia em que o Conselho de Ética abriu o processo
contra Vargas por quebra de decoro parlamentar, Mentor e o deputado
Cândido Vaccarezza (PT-SP), mesmo não fazendo parte do colegiado,
fizeram questão de presenciar o desenrolar dos debates.
Acompanharam a questão de ordem formulada pelo deputado Zé Geraldo
(PT-PA), pedindo a suspensão do processo, já que uma outra investigação
contra Vargas estaria em curso na Corregedoria da Casa. O pedido foi
negado pelo presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP) e,
posteriormente, pelo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves
(PMDB-RN). “Eu fiz isso por uma questão de apoio moral”, declarou
Vaccarezza ao Correio, quando questionado se teria ido à reunião do
colegiado por curiosidade ou interesse.
Pelos corredores do Congresso, também há quem garanta que um dos
possíveis alvos de preocupação com os desdobramentos da Operação
Lava-Jato poderia ser o ex-ministro e pré-candidato do PT ao governo de
São Paulo, Alexandre Padilha. Vargas tentou fechar um contrato de R$ 150
milhões de um laboratório chamado Labogen com a pasta. Segundo
investigações da PF, a Labogen pertence ao doleiro Alberto Youssef. Em
gravações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal, Vargas e
Youssef viam no negócio uma “independência financeira”.
Na última sexta-feira, durante ato da pré-campanha ao lado do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Padilha negou qualquer
preocupação com o assunto. Segundo ele, o contrato da Labogen com o
ministério nunca foi fechado. Petistas ouvidos pelo Correio confirmam
que o caso ainda poderá trazer dor de cabeça para o ex-ministro, e que
Vargas, por meio de interlocutores, estaria deixando isso claro na
memória de integrantes do partido.
"Ele (André Vargas) sempre foi trabalhador, mas também sempre foi
briguento. Conseguiu muito dinheiro para as prefeituras do interior do
Paraná. Deve ter apoiado mais ou menos 100 prefeituras”
Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), deputado
Relações suspeitas
Confira a sucessão de eventos que levou à saída de André Vargas (PT-PR)
da vice-presidência da Câmara após a descoberta da proximidade dele com
o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal
17 de março
A Polícia Federal desencadeia a Operação Lava-Jato para desarticular
organizações criminosas que tinham como finalidade a lavagem de
dinheiro, movimentando recursos superiores a R$ 10 bilhões.
23 de março
Reportagem da revista Veja informa que uma empresa chamada Labogen
assinou, com o Ministério da Saúde, contrato de R$ 150 milhões para o
fornecimento de remédios. Segundo a polícia, a Labogen, que tem capital
de apenas R$ 28 mil, é um dos instrumentos de lavagem de dinheiro de
Youssef. O contrato teria sido intermediado por André Vargas.
1° de abril
Reportagem do jornal Folha de S.Paulo revela que Vargas viajou para
João Pessoa, para passar as férias de janeiro com a família, em um
jatinho pago por Youssef.
2 de abril
André Vargas subiu à tribuna da Câmara e admitiu o uso do jatinho, mas
alegou que tentou reembolsar o aluguel da aeronave, sem sucesso. E negou
envolvimento no contrato da Labogen com o Ministério da Saúde. No
entanto, admitiu conhecer Youssef há mais de 20 anos, mas afirmou
desconhecer as atividades do doleiro.
3 de abril
O PSol apresenta ofício à Mesa Diretora da Câmara pedindo abertura do
processo de cassação contra André Vargas por quebra de decoro
parlamentar.
4 de abril
A Secretaria-Geral da Mesa rejeita o pedido, alegando que era inconsistente do ponto de vista regimental.
5 de abril
Diálogos interceptados pela PF e publicados na Veja revelam a
intimidade de Vargas e Youssef na busca pelo acerto do contrato entre a
Labogen e o Ministério da Saúde. Os dois teriam, segundo a revista,
conversado em 19 de setembro de 2013. De acordo com a reportagem,
Youssef disse a Vargas: “Cara, estou trabalhando, fica tranquilo.
Acredite em mim. Você vai ver quanto isso vai valer... Tua independência
financeira e nossa também, é claro...” Um dia depois, o doleiro pediu
ajuda a Vargas. “Estou enforcado. Preciso de ajuda para captar... Tô no
limite", disse Youssef. O vice-presidente da Câmara afirmou que iria
“atuar”.
7 de abril
André Vargas entrega na Mesa da Câmara um pedido de licença não remunerada do mandato por um período de 60 dias.
8 de abril
Durante entrevista a blogueiros, o ex-presidente Lula defende que
Vargas explique com clareza as supostas relações com o doleiro, para que
o “PT não pague o pato”.
9 de abril
O Conselho de Ética da Câmara abre processo por quebra de decoro
parlamentar contra André Vargas. Após reunião de emergência da
coordenação da bancada, ele renunciou ao cargo de vice-presidente da
Câmara, mas não ao mandato.
10 de abril
A Executiva Nacional do PT define um comitê para ouvir as explicações
de Vargas e sinaliza que o caso poderá ser encaminhado à Comissão de
Ética do partido.
Fonte: PAULO DE TARSO LYRA Correio Braziliense -





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