Resultado do Pisa 2012 mostrou que estudantes brasileiros de 15 anos também demonstram dificuldade em entender gráficos simples
Dois em cada três estudantes de 15 anos no Brasil não sabem trabalhar
operações matemáticas simples como frações, porcentagem e relações
proporcionais. Esse é um dos resultados do Pisa 2012, divulgado nesta
terça-feira (04) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
(OCDE). Apesar de ser um dos países que mais apresentou avanços na
matéria na última década, o Brasil ainda ocupa a 57ª posição dentre 65
nações avaliadas, com 391 pontos. No topo da tabela, a província chinesa
de Xangai, aos 613 pontos.
Para comparar o desempenho de diversos sistemas de ensino pelo mundo, a
OCDE determinou critérios comuns a serem avaliados, porém balanceados
segundo a formação sócio-econômica dos participantes. A parte de
Matemática, que foi o foco da prova do Pisa 2012, quis medir a
capacidade dos estudantes para formular, empregar e interpretar a
matemática em uma variedade de contextos do dia a dia, na resolução de
problemas. Por isso, para os avaliadores, não basta que um aluno saiba
somar e dividir, por exemplo, mas sim colocá-los em prática.
A partir da pontuação na prova, a OCDE estabeleceu seis níveis de
rendimento, onde o seis é o nível máximo de conhecimento. No Brasil,
mais de dois terços dos quase 20 mil estudantes que fizeram a prova
ficaram na faixa que vai até o nível dois, ou seja, bem abaixo na
tabela. Nesse nível, eles conseguem interpretar e reconhecer situações
em contextos que exigem apenas a inferência direta, além de fazerem
interpretação literal dos resultados. Mas para por aí. Mais de 65% dos
estudantes brasileiros não conseguem analisar um gráfico ou uma situação
do cotidiano e traduzir o problema para modelos matemáticos.
Como exemplo para explicar sua metodologia, a OCDE mostrou uma questão
da prova de Matemática onde o aluno se depara um gráfico em plano
cartesiano contendo quatro grupos de rock, segundo a quantidade de CDs
vendidos por mês. A partir daí, foi pedido para que o aluno
identificasse em qual mês uma determinada banda vendeu mais discos do
que outra, tarefa considerada complexa para muitos dos brasileiros.
Para o diretor-adjunto do Instituto de Matemática Pura e Aplicada
(Impa), Cláudio Landim, o Brasil tem o que comemorar, sobretudo na parte
mais baixa da tabela, os 10% piores, que melhoraram 100 pontos de 2003 a
2012. No entanto, Landim reconheceu que o país vive ainda uma situação
"precária":
- Não saber usar frações ou porcentagens é cada vez mais grave, pois
vivemos num mundo tecnológico, onde dominar essa operações é cada vez
mais imperativo - argumenta o diretor do Impa.
Cláudio Landim também ressaltou que grande parte da dificuldade dos
alunos em entender gráficos simples ou tabelas vem da deficiência em
Leitura, outra área analisada pelo Pisa:
- Quando participamos da Olimpíada Brasileira de Matemática, percebemos
que a dificuldade do aluno é compreender o que está sendo perguntado. É
compreensão do texto, puramente isso. Uma grande parcela não consegue
responder porque não entende o que está lendo. A compreensão textual tem
impacto significativo na Matemática.
Com 391 pontos em Matemática, o Brasil ficou abaixo de vizinhos como o
Chile, e de outros emergentes como a Turquia, 44ª no ranking, aos 448
pontos. Como para a OCDE, 41 pontos na tabela equivaleria a um ano de
estudo formal, os alunos brasileiros teriam que estudar um ano a mais
para alcançar o nível de seus colegas turcos, ou quase três anos para se
aproximarem do nível do Vietnã, que ficou em 17º lugar, com 511 pontos.
Já se a comparação for com os estudantes de Xangai, líderes na prova, o
Brasil deveria recuperar cinco anos de atraso.
Preocupação na indústria
O desempenho do Brasil foi considerado preocupante pelo
gerente-executivo de Estudo e Prospectiva da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Luiz Caruso. Segundo ele, as baixas na educação desses
jovens podem impactar sobre o desenvolvimento da indústria no país.
- Quando estiverem no mercado de trabalho, eles terão mais dificuldade
para absorver e trabalhar com novas tecnologias, o que impacta
diretamente a produtividade e a competitividade do país. Sem uma
educação básica de boa qualidade, a gente não tem cidadão e nem um bom
trabalhador - avalia Caruso.
De acordo com Caruso, a realidade também merece atenção, se levado em
consideração as oportunidades em educação profissionalizante, que vêm
recebendo investimentos do governo:
- É difícil trabalhar com esses jovens, pois a educação profissional
requer maior grau de complexidade. E como os jovens apresentam defasagem
em disciplinas básicas como matemática e português, acaba sendo
necessário sanar essas dificuldades durante o ensino médio, ocupando uma
parte da carga horária que poderia ser destinada a fins mais
específicos - afirma.
(Leonardo Vieira/O Globo)
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