As reações ao Pisa
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Editorial do Estado de S.Paulo sobre o resultado do programa
Tão importante quanto os resultados do Programa Internacional de
Avaliação de Estudantes (Pisa), que mostraram como Xangai, Hong Kong,
Cingapura e Coreia do Sul estão colhendo dividendos de seus
investimentos na área da educação, por considerá-la decisiva para o
desenvolvimento econômico da região, foram as reações dos demais países
avaliados. Em alguns, como o Chile, que ficou em 51.º lugar em
matemática e em 46.º em ciências, as autoridades educacionais pediram
desculpas aos estudantes.
Em países como a Finlândia e a Alemanha, que ocuparam as primeiras
posições nas edições anteriores do Pisa, a perda da liderança para os
países asiáticos deflagrou acirradas polêmicas. Como o desempenho da
economia finlandesa e da alemã é condicionado por sua capacidade de
inovação tecnológica, as autoridades econômicas não esconderam o temor
de que os resultados negativos do Pisa de 2012 afetem o desenvolvimento
futuro dos dois países. O mesmo ocorreu nos Estados Unidos, cujos
estudantes ficaram abaixo da média alcançada pelos países da OCDE. A
maior economia do planeta não conseguiu ficar nem mesmo entre os 20
primeiros lugares no ranking de matemática e ciência. Pedagogos
americanos lembraram que os estudantes dos países orientais se
destacaram não só em matemática e ciências, mas, igualmente, em leitura.
E também conseguiram exceder as informações aprendidas em sala de aula,
usando o conhecimento com criatividade para lidar com problemas
cotidianos.
Jornais americanos lembraram que essa habilidade era, até agora,
associada ao modelo de ensino do Ocidente. Mostraram que os países
asiáticos estabeleceram metas altas para sua rede escolar e indicaram os
melhores professores para as salas de aula mais desafiadoras e os
diretores mais competentes para as escolas mais problemáticas. Em
editorial, o Wall Street Journal advertiu que os Estados Unidos estão
correndo o risco de perder a liderança mundial no campo científico.
No Brasil, as reações foram diferentes. Preocupada com as dificuldades
que os adolescentes terão para absorver tecnologia quando entrarem no
mercado de trabalho, a Confederação Nacional da Indústria advertiu para o
risco de perda de produtividade e competitividade do País por causa da
má qualidade do ensino básico. Já o ministro da Educação, relevando o
58.º lugar ocupado pelo Brasil entre os 65 países, converteu o aumento
da média dos estudantes brasileiros em matemática - de 356 pontos, no
Pisa de 2003, para 391 pontos, em 2012 - em motivo de ufanismo. "Fomos o
país em que os estudantes mais evoluíram, na década. Quando olhamos o
filme, somos o primeiro da sala", disse Aloizio Mercadante.
Mas não há motivo para euforia. O avanço brasileiro partiu de um patamar
muito baixo. "Como comemorar os pontos ganhos no Pisa de 2012, se o
aumento na pontuação se deu com maior força entre os piores alunos, cuja
nota média em 2003 equivalia a zero e hoje, dez anos depois, esse mesmo
grupo ainda não é capaz de ler uma única informação em um gráfico de
barras?", indaga Paula Louzano, da Faculdade de Educação da USP. É que
apenas 0,8% dos estudantes brasileiros teve notas compatíveis com os
níveis 5 e 6 da escala do Pisa, que identificam as competências para
resolver questões mais complexas.
Por conveniência política, o ministro deixou de lado o fato de que 70%
dos participantes brasileiros do Pisa de 2012 não ultrapassaram o nível 1
da escala de habilidade em matemática, que identifica a capacidade de
resolver questões simples. Esses alunos não sabem, por exemplo, usar
informações de uma tabela ou gráfico para calcular uma média ou
tendência.
A prosperidade dos indivíduos, o sucesso das empresas e a riqueza das
nações dependem dos investimentos em educação. A reação de muitos países
desenvolvidos à sua queda no ranking do Pisa de 2012 mostra que eles
sabem disso e que tomarão providências urgentes para voltar a disputar a
liderança com os países orientais nas próximas edições do Pisa. Já no
Brasil, onde a educação tem sido entregue a políticos profissionais,
reações ufanistas dificilmente conseguirão levar essa área estratégica a
dar um salto de qualidade.
(O Estado de S. Paulo)
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