editorial do Estadão
Ao facilitar o pagamento da outorga na nova rodada de concessão de
aeroportos – que inclui os de Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e
Florianópolis –, o governo Temer procura evitar a repetição dos
problemas financeiros que as exigências excessivas impostas pelo governo
Dilma Rousseff nos leilões anteriores criaram para as concessionárias,
algumas das quais se declaram sem condições de fazer os pagamentos
devidos neste ano. Ao mesmo tempo, o governo oferece condições mais
atraentes para os investidores, o que tende a acirrar a disputa e,
assim, assegurar mais receita para o Tesouro. Trata-se de uma mudança
notável em relação aos métodos e às práticas do governo anterior.
Dominada pela ideologia estatizante, a administração lulopetista só
aceitou conceder a investidores privados a responsabilidade por serviços
públicos quando a falta de capacidade financeira e a incompetência
gerencial do governo ameaçaram levar esses serviços ao colapso. Mas,
mesmo quando foi forçado a reconhecer a necessidade do capital privado
na manutenção, melhoria ou expansão de serviços antes mantidos pelo
setor público, especialmente na área de infraestrutura, o governo do PT o
fez de maneira a limitar seu rendimento e seu campo de ação.
No caso dos aeroportos, o governo Dilma elevou excessivamente os valores
mínimos de outorga e impôs condições de pagamento que assegurassem
receitas imediatas, o que forçou as concessionárias a se comprometerem
com pagamentos pesados no início da concessão. Além disso, os vencedores
foram obrigados a aceitar a Empresa Brasileira de Infraestrutura
Aeroportuária (Infraero) como sócia, com 49% do capital do grupo, o que
limitou sua capacidade de gestão.
As oportunidades então identificadas pelos investidores os convenceram
de que, apesar das exigências, o negócio era rentável. Mas a recessão em
que o País mergulhou reduziu drasticamente o movimento nos aeroportos
e, consequentemente, a rentabilidade esperada pelos investidores. A
participação, em diversos consórcios vencedores, de empresas envolvidas
nas investigações conduzidas pela Operação Lava Jato acrescentou mais
problemas às concessionárias. O consórcio que venceu a disputa pelo
Aeroporto do Galeão – arrematado em novembro de 2013 por R$ 19 bilhões,
com ágio de 294% sobre o valor mínimo – anunciou há algum tempo que não
tem como pagar a parcela anual de R$ 900 milhões. O grupo é liderado
pela Odebrecht, investigada pela Lava Jato.
Estimadas anteriormente em R$ 4,108 bilhões, as outorgas dos aeroportos
de Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Florianópolis tiveram seu valor
mínimo reduzido para R$ 3,01 bilhões. Do valor oferecido, os vencedores
da disputa – marcada para o dia 16 de março de 2017, na BM&FBovespa –
deverão pagar à vista apenas 25%. Disporão de cinco anos de carência
para iniciar o pagamento do saldo de 75%, em parcelas anuais crescentes.
A redução do valor mínimo da outorga terá, como contrapartida, o
compromisso dos novos concessionários de assumir o custo do plano de
demissão voluntária dos funcionários da Infraero que hoje trabalham nos
aeroportos que serão concedidos.
A carência de cinco anos tende a aliviar o caixa das novas empresas
operadoras dos aeroportos num período em que são maiores as exigências
de investimentos. Nas concessões anteriores, as empresas vencedoras se
queixavam de que os pagamentos vultosos que eram obrigadas a fazer no
período inicial da concessão reduziam sua capacidade de investimentos, o
que as sujeitava a punições pelo não cumprimento do cronograma de obras
de expansão e melhoria.
As empresas interessadas deverão comprovar experiência mínima de cinco
anos na operação de aeroportos com fluxo de passageiros equiparável ao
dos aeroportos oferecidos (os de Salvador e Porto Alegre registraram
movimentação de cerca de 9 milhões de passageiros por ano). Essa
exigência afasta o risco de empresas sem experiência e capacidade
operacional adequadas assumirem esses aeroportos.
extraídaderota2014blogspot





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