Por Fabíola Perez, de Roma - IstoE
Um dos maiores especialistas do mundo no combate às doenças do coração, o
médico inglês Peter Sever foi o porta-voz, durante o Congresso Europeu
de Cardiologia, realizado em Roma, na Itália, de uma notícia
revolucionária. Sever, que é professor de Farmacologia Clínica e
Terapêutica do Imperial College of London, expôs em detalhes o impacto
que uma nova classe de remédios pode provocar no combate ao colesterol.
As medicações Repatha e Praluent, já disponíveis no Brasil, reduzem os
níveis de LDL, o chamado colesterol ruim, em até 70%. “Conseguimos uma
mudança jamais vista antes”, afirmou Server à ISTOÉ, durante um dos
breves intervalos entre as sessões do evento. Na entrevista a seguir, o
professor falou também de outros avanços da medicina.
O que representa a chegada dessa nova classe de remédios contra o colesterol?
Vivemos uma revolução no tratamento do colesterol. Tivemos avanços com o
uso das estatinas (drogas usadas até agora), mas nada tem se mostrado
tão eficiente quanto essas medicações. O colesterol ruim pode ser
reduzido em cerca de 70%. As estatinas conseguem uma redução de 40%.
Como se chega a esse resultado?
Os remédios atuam sobre uma proteína específica associada ao acúmulo de
LDL. Por isso, são precisos e chegam diretamente no alvo.
Qual o impacto futuro que essas drogas terão no combate às doenças cardiovasculares?
Prevemos que haverá uma grande redução no número de infarto. Assim que
isso for comprovado, os órgãos regulatórios de todo o mundo poderão
contar com as evidências para decidir sobre a extensão das indicações
das drogas e das políticas públicas de acesso a elas.
No momento, são indicadas a quem?
A grupos de pessoas com altos índices de colesterol e risco
cardiovascular, pacientes com predisposição genética ao acúmulo de LDL e
aqueles intolerantes às estatinas.
As estatinas deixaram de ser eficientes?
Não. Mas muitas pessoas reclamam de seus efeitos colaterais. Queixam-se
de dores musculares, insônia e disfunções sexuais ligadas ao uso destes
medicamentos. Os testes clínicos com essa nova classe de medicamentos
mostram ótimos resultados na redução do LDL sem causar estes efeitos
colaterais, representando uma opção para os pacientes.
Um
dos problemas em relação a novos remédios, especialmente os biológicos,
é seu alto custo, o que impede o acesso da maioria das pessoas a eles. O
mesmo deverá acontecer com essa nova categoria?
Alguns países podem não ter dinheiro para fazer a distribuição a uma
parcela maior da população. Mas sabemos que existem três companhias que
vão competir nesse mercado e, com isso, a tendência é que os preços
diminuam.
Todos
sabem o que é preciso fazer para controlar o colesterol. Dieta saudável
e exercício físico. Por que os índices de pessoas com alto colesterol
ainda são tão expressivos?
A informação não é insuficiente, a educação é que está errada. As
pessoas, muitas vezes, apenas se recusam a seguir o que é orientado. O
fator mais importante para prevenção é a educação, não apenas entre os
médicos, mas do público em geral. As pessoas sabem que cigarro faz mal
para a saúde, estão cientes de que consumir muito álcool pode ser
prejudicial para o fígado e sabem que gordura e colesterol são ruins
para o coração. Mas, normalmente, não prestam atenção nos fatores de
risco, e isso é muito ruim.
O nível da adesão dos pacientes aos tratamentos é muito diferente em países desenvolvidos e nos emergentes?
Há mais aderência aos tratamentos nos Estados Unidos. Mas, em geral,
muitas pessoas acabam ignorando suas condições de saúde. A maior parte
das populações não segue as recomendações passadas pelos médicos,
inclusive no Reino Unido. Na América do Sul ocorre o mesmo. Mas o
trabalho deve ser conjunto. Os governos têm a responsabilidade de educar
a sociedade acerca dos fatores de risco, como se proteger. A comunidade
médica deveria participar mais de congressos, por exemplo, para se
atualizar e se preparar melhor. Seria um caminho muito efetivo.
Há
muita dificuldade de controle em relação aos outros fatores de risco,
como o sedentarismo e a hipertensão. Pelos mesmos motivos?
Vamos pensar em todos os outros fatores de risco além do colesterol:
tabagismo, pressão alta, sedentarismo e diabetes. Quanto ao tabagismo,
realmente não é fácil fazer as pessoas pararem de fumar. Para
hipertensão, temos medicamentos capazes de controlá-la, mas quantos
pacientes de fato são capazes de reduzir a pressão sanguínea
efetivamente? Na maioria dos países, esse número varia de 25% a 50%. É
muito difícil convencer as pessoas a mudarem seu estilo de vida.
Qual a responsabilidade dos médicos nessa tarefa?
Os médicos não têm tempo para instruir bem os pacientes. A média de uma
consulta no Reino Unido é de quatro a seis minutos. Eles perguntam
apenas nome, idade e o problema principal. O ideal seria que todos os
pacientes passassem por uma triagem primária antes das consultas, com
espaço para conversar com enfermeiros sobre seu estilo de vida, dieta,
rotina de exercícios, uso de medicamentos, tratamentos em curso etc.
Informações que seriam adicionadas nas fichas de cada paciente, servindo
de base para o médico conduzir a consulta. Mas, infelizmente, 99% dos
médicos não têm este tipo de abordagem.
E o papel das autoridades públicas?
No Reino Unido, existem campanhas educativas para prevenção realizadas
pelo Departamento Nacional de Saúde Pública. Acredito que esta é a
direção certa. O grande problema é que muitos governos sofrem forte
pressão da indústria alimentícia, assim como da tabagista, para que seus
produtos continuem a vender muito. Há um claro conflito de interesses. E
as pessoas sofrem as consequências disso.
Levantamentos
epidemiológicos alertam sobre o aumento no número de crianças com
colesterol alto, obesas e hipertensas. Como é possível reverter isso
para que não se crie uma nova geração de pacientes de alto risco?
A obesidade é um dos maiores problemas envolvendo crianças. Nos últimos
cinco ou seis anos, o número de jovens obesos aumentou
significativamente e, agora, vemos crianças de doze, treze anos
desenvolvendo a diabetes tipo 2. A doença, intimamente ligada à
obesidade, só era diagnosticada em adultos anos atrás. Esse problema se
deve exclusivamente à combinação de maus hábitos alimentares e falta da
prática de exercícios físicos. É claro que há a exceção dos pacientes
que sofrem de doenças genéticas. Para estes casos, existe a
possibilidade de tratamentos precoces com medicação.
Muitos
especialistas defendem a proibição da propaganda de produtos infantis
com alto teor de gordura e açúcar. O senhor concorda com isso?
Sim. Os governos têm muita responsabilidade nisso. Nos Estados Unidos e
no Reino Unido, as autoridades tentaram implementar uma taxação extra
para produtos ricos em açúcar, mas é muito difícil colocar isso em
prática. As empresas da indústria alimentícia faturam bilhões de dólares
com a venda desses produtos. Mas, no Reino Unido, por exemplo, tivemos
avanços como a proibição de propagandas de alguns produtos específicos
na tevê antes das 21 horas, para evitar que as crianças sejam
influenciadas. Pensando no futuro, a educação alimentar do jovens
deveria ser algo muito mais difundido.
O que ainda falta ser descoberto sobre o coração?
Não conhecemos todas as doenças cardíacas, mas acredito que chegamos a
um nível muito avançado. Se olharmos o conjunto de pessoas que foram
acometidas por doenças cardiovasculares, em 95% dos casos podemos
explicar a condição analisando os fatores colesterol, tabagismo, pressão
arterial, diabetes e prática de exercícios. Excluindo esses pontos, não
há muito com o que se preocupar.
Tratamentos cada vez mais personalizados têm sido usados contra o câncer. Este será o caminho para as doenças do coração?
Há uma diferença entre os tratamentos contra câncer e colesterol. O
progresso nos tratamentos personalizados do câncer está no estudo da
célula tumoral e o desenvolvimento de anticorpos contra aquele tipo
específico de tumor, combatendo a doença de maneira mais eficaz. Para as
doenças cardiovasculares, não são necessários tratamentos tão
personalizados.
Por que doenças cardiovasculares em mulheres têm sido negligenciadas em todo o mundo?
Porque até os 55 anos o risco de ataques cardíacos em mulheres é
substancialmente menor do que em homens. Ao longo do tempo,
principalmente depois da menopausa, a diferença diminui, mas é uma
preocupação que surge mais tarde. No entanto, as mulheres estão hoje
muito mais sujeitas ao estresse, acumulando funções no mercado de
trabalho e dentro de casa. Esse é um ponto a ser considerado, já que o
estresse é um dos fatores de risco para infarto. Os médicos devem deixar
de ignorar os sinais de doença cardíaca em mulheres jovens.
Qual a sua perspectiva sobre a evolução das doenças cardíacas em todo o mundo?
A perspectiva é diferente de acordo com o país. No Reino Unido, os
ataques do coração diminuíram 50% nos últimos dez anos. Esta é uma
redução fantástica. Isso se deve parcialmente a mudanças de hábitos e ao
uso de medicamentos. O acesso aos tratamentos tem aumentado. Nos países
subdesenvolvidos, porém, a alimentação de má qualidade ainda é um sério
fator de risco. Para os próximos anos, acredito que viveremos um
contraste. Os países pobres registrarão uma situação mais dramática, com
um aumento constante em níveis de colesterol e doenças do coração. Por
outro lado, as nações desenvolvidas, como Alemanha e Reino Unido entre
outros, assistirão a uma redução no número de pessoas que sofrem
infarto.
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