MERVAL PEREIRA O Globo
Diante da judicialização
do impeachment da ex-presidente Dilma, é inevitável que o STF entre na
questão, até mesmo para dizer que não cabe a ele decidir. A excêntrica
decisão do Senado, separando a cassação do mandato presidencial da
inabilitação para funções públicas, além de provocar incongruências tão
graves quanto Dilma poder exercer qualquer cargo no país, menos o de
presidente da República, tem ainda um fator político que terá
desdobramentos graves.
Já não é possível garantir que o governo
Temer tem uma base parlamentar sólida, pois a desconfiança de que o
presidente concordou com a solução já não pode mais ser afastada. Tudo
parece levar a uma solução de compromisso muito própria do PMDB, que não
tem limitações quando se trata de acordo político nos bastidores.
Se
houve um consenso entre as lideranças peemedebistas para fazer um gesto
que ajudasse tanto o PT quanto seus líderes políticos atingidos pela
Operação Lava-Jato, como o próprio Renan Calheiros e Eduardo Cunha,
faltou lembrar que a permanência dos direitos políticos de Dilma pode
obrigar a que o processo contra a chapa DilmaTemer prossiga no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE). Caso Dilma tivesse sido punida integralmente,
ficaria mais simples propor o fim do processo por perda do objeto, o que
ainda pode ocorrer, por sinal.
Não é possível a esta altura
afirmar qual será o caminho que a maioria do STF tomará, mas há algumas
tendências que devem ser observadas. Parece improvável, embora essa
possibilidade exista, que uma eventual decisão implique a anulação da
sessão do Senado que levou ao impeachment e à solução heterodoxa de
fatiar a sentença, permitindo que a ex-presidente preserve seus direitos
político.
Este é o temor dos partidos da base de apoio de Temer
que, no entanto, tiveram que entrar com ações no Supremo porque o PT
pediu naquela Corte a anulação da sessão, e há outras várias ações, de
associações ou pessoais, em diversos sentidos, a favor ou contra a
decisão do Senado.
Se o STF decidir que cabe a ele dirimir as
dúvidas, poderá fazê-lo tratando apenas da separação dos termos do texto
do artigo 52 da Constituição, mas também poderá entrar no mérito, o que
sempre evitou. Não parece provável, porém, que o Supremo decida agora
debater o mérito do impeachment.
O ministro Luiz Fux já deu uma
declaração em tese que define bem esse impasse: “Eu acho que, em
princípio, nós, juízes, deferimos ao parlamento a solução de questões
políticas. Mas quando essas questões políticas são decididas com
violação dos princípios inerentes ao estado democrático de direito, é
sindicável ao Supremo a apreciação dessas infrações", disse Fux.
Para
todas as evidências, o que aconteceu na sessão de impeachment do Senado
foi uma violação constitucional, e há muitos juristas que consideram
que a decisão de fatiar o julgamento é simplesmente nula, podendo ser
contestada a qualquer momento, não gerando efeitos, portanto. Mas, como
comentam ministros do STF, o que é ou não inconstitucional depende de
que se defina antes quem dá a última palavra sobre o assunto.
O
Supremo é conhecido pela definição de Rui Barbosa de que é quem pode
errar por último. Nesse caso, porém, pode ser que se considere que cabia
ao Senado essa última palavra, não sendo possível interferência de
outra instância. Acima de todas as questões que estão sendo levantadas,
pode-se dizer que há um sentimento generalizado no Supremo de não querer
interferir demais na questão delicada do impeachment, daí ser mais
provável que não avance até a anulação de todo processo, e provavelmente
nem mesmo trate das demais questões.
Fazer a roda do tempo
retroceder, trazendo de volta Dilma à Presidência da República, elevaria
em muito o nível de excentricidade de nossa política nacional, gerando
uma insegurança jurídica imensurável. Ao mesmo tempo, devido à decisão
bizarra, na definição do ministro do STF Gilmar Mendes, que foi tomada, e
suas consequências na vida política brasileira, pode ser que o plenário
resolva discutir a validade da decisão, até mesmo para evitar que seus
efeitos se espalhem.
O ex-senador Delcídio Amaral, que foi
cassado pelo Senado e perdeu, além do mandato, seus direitos políticos,
já entrou com uma ação pedindo isonomia de tratamento, e o mesmo fará o
deputado Eduardo Cunha.
Por uma coincidência do destino, ele será
julgado na Câmara no mesmo dia em que toma posse na presidência do
Supremo a ministra Cármem Lúcia, substituindo Lewandowski, e
provavelmente será sob sua direção que a Corte decidirá sobre o destino
dessas ações. Uma mudança de guarda que deve marcar também mudanças de
prioridades do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça




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