editorial de O Globo
A enorme ambiguidade que vive o PMDB, partido de Michel Temer, de
substituir o PT no Planalto, na tramitação do impeachment de Dilma, mas
ter sido sócio de petistas em esquemas tenebrosos de corrupção,
principalmente no que ajudou a desestabilizar a Petrobras, impõe ao
presidente interino um comportamento inflexível em questões éticas — ele
não pode vacilar diante do envolvimento de ministros ou assessores
próximos com a malversação de dinheiro público.
Ao assumir, no afastamento de Dilma Rousseff decidido pelo Senado, Temer
foi logo testado com as primeiras revelações de conversas gravadas pelo
ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, enquanto acertava sua
delação premiada com o Ministério Público.
Senador tucano pelo Ceará que se transferiu para o PMDB, Machado sempre
foi tido como homem do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL),
na Petrobras, da qual a Transpetro é subsidiária.
O ex-senador Machado cumpriu papel de homem-bomba ao gravar conversas
comprometedoras no núcleo do poder. Temer chegou a titubear assim que
circularam diálogos em que o ainda ministro do Planejamento Romero Jucá,
senador peemedebista por Roraima, licenciado, defendia um pacto
delirante pelo qual Executivo e Supremo trabalhariam para abafar a
Lava-Jato. Apesar da visível resistência do Planalto a demitir Jucá, ele
foi exonerado.
Depois, viria o caso do ministro da Transparência, ex-CGU, Fabiano
Silveira, também defenestrado por ser vítima do gravador de Machado. E
pelo mesmo delito: conspirar contra a Lava-Jato, apoiada incondicional e
publicamente pelo presidente interino.
Temer fez certo até aqui, mas ele começa agora a enfrentar testes mais
duros, porque se amplia a divulgação de fatos nada republicanos em torno
da cúpula do próprio PMDB. O procurador-geral, Rodrigo Janot, por
exemplo, acaba de pedir abertura de inquérito sobre Renan Calheiros,
Jucá e até o ex-presidente de José Sarney, este já sem foro especial.
Machado, em depoimento, revelou que subtraiu dos cofres da Transpetro R$
70 milhões para distribuí-los entre Renan, Jucá e Sarney. Outros
beneficiados foram os também senadores peemedebistas Edison Lobão (MA) e
Jader Barbalho (PA). E há, ainda, o ministro do Turismo, Henrique
Eduardo Alves, ligado à corrupção do petrolão, segundo Rodrigo Janot, e
que por isso pediu inquérito sobre ele. Existe, também, a titular da
Secretaria das Mulheres, Fátima Pelaes, investigada por desviar dinheiro
de emendas parlamentares. Temer ontem decidiu mantê-los. Deveria pensar
melhor.
Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, o ministro-chefe da Casa Civil,
Eliseu Padilha, disse que está acertado no governo que todo atingido
pela Lava-Jato terá de pedir demissão. Caso contrário, será demitido.
Deve valer para qualquer outro caso de corrupção.
É a melhor postura. Porém, a decisão tomada por Temer com relação a
Henrique Alves e Fátima Pelaes é preocupante. O governo anda
equilibrando-se no arame: necessita de votos para confirmar o
impeachment e aprovar as reformas imprescindíveis, mas não conseguirá se
manter se compactuar com a corrupção.
extraídaderota2014blogspot





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