Samuel Pessôa:Folha de São Paulo
De 1994 até 2008, a política econômica seguiu receituário "neoliberal". A
expressão não é precisa pois nesse período a carga tributária e o gasto
social se elevaram. Mas houve ortodoxia na macroeconomia e implantação
de agenda que visava a redução do intervencionismo estatal, esta
desfeita em 2006, com a troca de guarda na Fazenda.
O regime de política econômica, em resposta à crise global e à euforia
causada pela descoberta do pré-sal, mudou de vez em 2009. Até 2010, aos
trancos e barrancos, melhorávamos continuamente. A partir de 2011,
passamos a piorar continuamente.
A heterodoxia brasileira argumenta que o ajuste fiscal de 2011 tirou a
economia dos eixos e que os estímulos fiscais de 2012-2014 foram
ineficazes. Ou seja, colocaram os heterodoxos errados na Fazenda.
Teremos de esperar um novo governo de esquerda para tentarmos a
heterodoxia correta.
Comparação interessante é do Chile com a Argentina. O Chile, mesmo nos
governos de esquerda, pratica política econômica dita neoliberal. Já a
Argentina casou com a heterodoxia econômica desde 1940, com algumas
breves interrupções. Os anos Kirchner, em particular, foram um festival
de heterodoxia.
Em 1990, a renda per capita da Argentina, segundo o FMI, era de US$
7.213, enquanto a renda per capita do Chile era de US$ 5.846. Os dados
estão em dólares constantes comparáveis, isto é, controlando por
diferenças sistemáticas de custo de vida entre as economias.
O Chile cresceu lenta e ininterruptamente, de forma que hoje a sua renda
per capita é 21% maior do que a argentina. Os dados de PIB argentino
incorporam a revisão das contas nacionais que será divulgada no próximo
mês, que reduzirá o crescimento no período de 2002 até 2014 de 5,6% ao
ano para 4,2%.
Crescimento de 4,2% ao ano parece bom. Não é o caso, pois em 2002 a base
estava extremamente deprimida em razão da crise econômica que resultou
na alteração do regime cambial: entre 1999 e 2002, o PIB da Argentina
recuou 20%.
Mas o legado dos Kirchner não é somente de baixo crescimento. Houve
também aumento consistente da inflação, que se encontra hoje na casa de
35% ao ano.
Finalmente, podemos olhar outra dupla de países. Colômbia e Venezuela
são dois vizinhos muito parecidos em diversas medidas. Em 2000, o PIB
per capita da Colômbia era de US$ 6.621, enquanto o PIB per capita da
Venezuela era de US$ 11.627, também em dólares internacionais
constantes. O PIB per capita da Colômbia era 57% do da Venezuela.
A Colômbia cresceu lenta e ininterruptamente ao longo de todo esse
período, de forma que hoje o PIB per capita da Colômbia é 83% do PIB per
capita da Venezuela, segundo as estatísticas oficiais, que, como no
caso argentino, devem ser revistas para menor quando e se o chavismo
sair do governo.
Todas as indicações que temos são que a pobreza tem crescido muito na
Venezuela (não há dados oficiais) e a inflação explodiu, enquanto na
Colômbia a pobreza tem caído ininterruptamente –em 2000, a taxa de
pobreza era de 28% da população e em 2013 foi de 14%, e a inflação está
controlada.
A Colômbia pratica políticas que nossos economistas heterodoxos nomeiam de neoliberais.
extraídaderota2014blogspot





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