Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 10 de junho de 2016

"Não há cortinas"

 Roberto DaMatta: O Globo

Em todo lugar, governar é ser transparente, menos no Brasil. Aqui, governar é cuidar, enganar, roubar e mentir mas, acima de tudo, é ‘se arrumar’



O decorador estranhou quando o professor comentou que nós, brasileiros, não gostamos de cortinas.
— Então vamos às persianas...
— Não — respondeu o professor. — Continuemos com as cortinas. Peço desculpas. Eu pensava nas “cortinas” de teatro: aquelas que marcam irremediavelmente o fim de um ato ou da peça!
— Entendo, mas ainda estou no ar.
O professor — que era um velho conservador, foi estigmatizado como homofóbico por um f.d.p. e era chamado por alguns “amigos” e alunos de golpista — explicou:
— Quando, inocentemente, me perguntam “o que é o Brasil?”, eu candidamente penso numa sociedade que não consegue fechar etapas, períodos, crises ou até mesmo portas! Somos das aberturas e inaugurações. Amamos as novelas: um gênero no qual um fio produz muitos enredos que prendem todo mundo a todo mundo. O drama reafirma uma vida social interligada, na qual o fechamento é difícil.
Se nós não conseguimos nos despedir depois de um jantar ou começar ou terminar alguma coisa na hora marcada, será que fechamos o Império e começamos a República?
— Deixa eu te falar uma coisa — continuou. — Nos Estados Unidos, as pessoas são, como viu Tocqueville, pessimamente educadas. Dizem “até logo” num segundo e vão diretamente a um assunto. Aqui, levamos horas nos despedindo no elevador. Mas lá os bandidos são presos; aqui, reeleitos.
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Nós adoramos o palco e os dramalhões. Estamos revivendo um deles. Penso que está sendo dirigido por um Carlitos — vagabundo fora do mundo enrolado com muitos malandros.
— Há diferença entre vagabundo e malandro?
— Sem dúvida. O vagabundo recusa o sistema. O malandro usa muito bem o sistema.
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Agora, com a devida vênia, eu pergunto ao Temer presidente interino e constitucionalista, ao Temer professor e ao Michel poeta: quem nomeia esses atores tão lambuzados?
Seria o poeta que vive no mundo da lua? Ou é o constitucionalista que ama os axiomas da lei luso-brasileira? Temos um “Ministério da Transparência” porque, admitindo sem saber o nosso amor pelas ambiguidades do “rabo preso” somos intransparentes. Não é preciso ler Freud!
Em todo lugar, governar é ser transparente, menos no Brasil. Aqui, governar é cuidar, enganar, roubar e mentir mas, acima de tudo, é “se arrumar”. Se assim não fosse, o conceito de “transparência” — revelador nas suas conotações psicológicas — não seria chamado ao palco.
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— Mas, professor, teatro é ficção, mas política tem consequências. Para muitos, ela é a única realidade. Quem não pensa o mundo politicamente é, como o senhor, reacionário. E, no entanto, todo esse realismo tornou-se uma perversa ficção neste Brasil onde todos os desentendidos ocorrem de modo avassalador. Poucos não têm o “rabo preso”. Eis uma triste figura. Haveria alguém livre? Sem dúvida, mas a serem contados nos dedos. Como ser livre sem ter a capacidade de dizer não a si mesmo? Esse axioma das democracias igualitárias.
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Como sair da crise em alguém que esteja um pouco fora dela?
O velho professor não ousa responder. Tem medo de ser admoestado pelos mais puros adeptos da fantasia. Todo sistema canibaliza seus membros, mas também é por eles controlado. No nosso caso, seria preciso menos confusão entre atores e papéis, entre o real e a ideologia, entre o poder como meio para a riqueza às custas do povo naquilo que se chama populismo.
Afinal, como disse o laureado Paul Krugman no “New York Times”, os empresários — estilo Donald e Marcelinho Other Brecth — descobriram que investir em políticos e partidos produz excelentes ganhos de capital.
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— Nesse momento de “crise”, neste instante metafísico e transcendental em que vivemos, pois a crise faz com que tudo fique próximo e distante ao mesmo tempo, não estaríamos vivendo sem querer saber, mas já sabendo, a compra do mundo pelo capitalismo? Pelo capitalismo como mais um trivial negócio capitalista? Afinal, há um capitalismo como estilo de vida, e outro que deseja ser o englobador exclusivo da vida no planeta. Para este tipo de capitalismo, nada é sagrado, exceto ele próprio. Estamos agora tratando de tornar a Terra um negócio. O último negócio...
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