Roberto DaMatta: O Globo
O decorador estranhou quando o professor comentou que nós, brasileiros, não gostamos de cortinas.
— Então vamos às persianas...
— Não — respondeu o professor. — Continuemos com as cortinas. Peço
desculpas. Eu pensava nas “cortinas” de teatro: aquelas que marcam
irremediavelmente o fim de um ato ou da peça!
— Entendo, mas ainda estou no ar.
O professor — que era um velho conservador, foi estigmatizado como
homofóbico por um f.d.p. e era chamado por alguns “amigos” e alunos de
golpista — explicou:
— Quando, inocentemente, me perguntam “o que é o Brasil?”, eu
candidamente penso numa sociedade que não consegue fechar etapas,
períodos, crises ou até mesmo portas! Somos das aberturas e
inaugurações. Amamos as novelas: um gênero no qual um fio produz muitos
enredos que prendem todo mundo a todo mundo. O drama reafirma uma vida
social interligada, na qual o fechamento é difícil.
Se nós não conseguimos nos despedir depois de um jantar ou começar ou
terminar alguma coisa na hora marcada, será que fechamos o Império e
começamos a República?
— Deixa eu te falar uma coisa — continuou. — Nos Estados Unidos, as
pessoas são, como viu Tocqueville, pessimamente educadas. Dizem “até
logo” num segundo e vão diretamente a um assunto. Aqui, levamos horas
nos despedindo no elevador. Mas lá os bandidos são presos; aqui,
reeleitos.
______________
Nós adoramos o palco e os dramalhões. Estamos revivendo um deles. Penso
que está sendo dirigido por um Carlitos — vagabundo fora do mundo
enrolado com muitos malandros.
— Há diferença entre vagabundo e malandro?
— Sem dúvida. O vagabundo recusa o sistema. O malandro usa muito bem o sistema.
_______________
Agora, com a devida vênia, eu pergunto ao Temer presidente interino e
constitucionalista, ao Temer professor e ao Michel poeta: quem nomeia
esses atores tão lambuzados?
Seria o poeta que vive no mundo da lua? Ou é o constitucionalista que
ama os axiomas da lei luso-brasileira? Temos um “Ministério da
Transparência” porque, admitindo sem saber o nosso amor pelas
ambiguidades do “rabo preso” somos intransparentes. Não é preciso ler
Freud!
Em todo lugar, governar é ser transparente, menos no Brasil. Aqui,
governar é cuidar, enganar, roubar e mentir mas, acima de tudo, é “se
arrumar”. Se assim não fosse, o conceito de “transparência” — revelador
nas suas conotações psicológicas — não seria chamado ao palco.
_____________
— Mas, professor, teatro é ficção, mas política tem consequências. Para
muitos, ela é a única realidade. Quem não pensa o mundo politicamente é,
como o senhor, reacionário. E, no entanto, todo esse realismo tornou-se
uma perversa ficção neste Brasil onde todos os desentendidos ocorrem de
modo avassalador. Poucos não têm o “rabo preso”. Eis uma triste figura.
Haveria alguém livre? Sem dúvida, mas a serem contados nos dedos. Como
ser livre sem ter a capacidade de dizer não a si mesmo? Esse axioma das
democracias igualitárias.
____________
Como sair da crise em alguém que esteja um pouco fora dela?
O velho professor não ousa responder. Tem medo de ser admoestado pelos
mais puros adeptos da fantasia. Todo sistema canibaliza seus membros,
mas também é por eles controlado. No nosso caso, seria preciso menos
confusão entre atores e papéis, entre o real e a ideologia, entre o
poder como meio para a riqueza às custas do povo naquilo que se chama
populismo.
Afinal, como disse o laureado Paul Krugman no “New York Times”, os
empresários — estilo Donald e Marcelinho Other Brecth — descobriram que
investir em políticos e partidos produz excelentes ganhos de capital.
___________
— Nesse momento de “crise”, neste instante metafísico e transcendental
em que vivemos, pois a crise faz com que tudo fique próximo e distante
ao mesmo tempo, não estaríamos vivendo sem querer saber, mas já sabendo,
a compra do mundo pelo capitalismo? Pelo capitalismo como mais um
trivial negócio capitalista? Afinal, há um capitalismo como estilo de
vida, e outro que deseja ser o englobador exclusivo da vida no planeta.
Para este tipo de capitalismo, nada é sagrado, exceto ele próprio.
Estamos agora tratando de tornar a Terra um negócio. O último negócio...
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário