Murilo de Aragão: Com Blog do Noblat - O Globo
Alguns
políticos acreditam que, após as delações de Marcelo Odebrecht, Léo
Pinheiro e Sérgio Machado, não restará muita informação a ser revelada
pela Operação-Lava Jato. Por quê?
A lógica por trás do raciocínio é a seguinte: no petrolãonão existiria
nada financeiramente mais importante do que as operações que envolveram
Odebrecht, OAS e o então presidente da Transpetro. Qualquer outro evento
no âmbito da Lava-Jato seria menor, pouco expressivo. Não creio.
Os desdobramentos dessa investigação ainda vão gerar muitas reflexões e
consequências, destinadas a depurar o sistema político. Assim como o
filme Hiroshima, meu amor, clássico de Alain Resnais de 1959 sobre a
tragédia de Hiroshima, na Segunda Guerra, mostrou o dilema, anos depois,
de personagens prisioneiros de uma vida sem perspectivas.
O certo é que, num primeiro momento, a combinação das três delações
mencionadas vai implodir o ex-presidente Lula, a presidente afastada
Dilma Rousseff, ex-ministros do PT, caciques do PMDB, entre outros. Será
uma imensa devastação que desfigurará a política nacional, tal como
aconteceu com Hiroshima há 71 anos. E depois? O que acontecerá?
O passo seguinte será a digestão do escândalo por parte do Supremo
Tribunal Federal (STF). Enquanto o juiz federal Sérgio Moro, responsável
pelo andamento da Lava-Jato, em Curitiba, já condenou mais de 100
pessoas, o STF avança em ritmo prudente. Aqui e ali, por causa do
absurdo da situação, ocorre uma decisão mais aguda, a exemplo da prisão
do então senador Delcídio do Amaral e do afastamento do deputado Eduardo
Cunha, presidente da Câmara.
Está muito claro que o Supremo não quer atravessar o sinal do ponto de
inflexão institucional antes que se defina a situação de Dilma Rousseff.
Até lá, as emoções serão mais pontuais do que processuais. E talvez
deva ser assim mesmo.
No entanto, entre o hoje e o amanhã, teremos as três delações, todas com
alto poder de destruição. O que vai acontecer? Primeiro, devemos
considerar que os principais partidos políticos do país vão sair
estropiados do processo, com desfalque de lideranças. Depois, após a
definição do impeachment, um processo de depuração será deflagrado pelas
investigações do STF. Qual será o alcance desse processo? Não sabemos.
O certo é que nada será como antes. Política e eleições não serão as
mesmas. A elevação dos padrões será decisiva, ainda que nem tudo deva
melhorar de uma hora para outra. Mas as decisões do STF permanecerão,
por um bom tempo, como radioatividade, corroendo as entranhas do sistema
político nacional.
exjtraídaderota2014blogspot




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