Hélio Schwartsman:Folha de São Paulo
"Muito ruim para a governabilidade", sentencia
a nota do Planalto sobre a delação premiada de Sérgio Machado que acusa
o presidente interino, Michel Temer, de ter solicitado propina para
financiar uma campanha eleitoral. É difícil discordar.
O furacão deflagrado pela denúncia de Machado adiciona ainda mais instabilidade a um quadro político que já era precário.
É preciso, porém, distinguir a governabilidade de curto prazo de outra
com horizontes mais dilatados. Para esta última, a devastação provocada
por Machado, que certamente será ampliada por outras delações que estão
na fila, é uma boa notícia.
A crer no excelente "Por Que as Nações Fracassam", de Daron Acemoglu
(MIT) e James Robinson (Harvard), que já citei aqui algumas vezes, o que
diferencia países que deram certo dos Estados falidos é a natureza de
suas instituições. Se elas forem inclusivas, permitindo que a maioria da
população tire proveito das oportunidades econômicas, o desenvolvimento
vem como consequência; se forem extrativistas, isto é, utilizadas com o
propósito de favorecer uma elite, pode até ocorrer crescimento, mas seu
fôlego será curto.
Meu palpite é que o Brasil está bem no meio do caminho. Temos, por
certo, instituições bem melhores do que as de países africanos e mesmo
muitos latino-americanos. O simples fato de a Lava Jato prosseguir,
apesar da pressão de políticos em contrário, é prova disso. Mas, por
outro lado, a dimensão estonteante da operação policial e o fato de ela
já ter recuperado bilhões de reais em recursos desviados mostram que a
elite política e empresarial se servia das estruturas do Estado num
caráter ainda bastante extrativista.
Levar a Lava Jato até o fim é um passo necessário para avançarmos na
consolidação das instituições que fazem com que nações deem certo. Se o
preço a pagar for sacrificar um governo que começava a arrumar a bagunça
econômica, paciência.
extraídaderota2014blogspot





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