Nelson Motta: O Globo
Quando era criança nos anos 50, aterrorizado pelos livros de ficção
científica, pelas profecias de Nostradamus e pelas ameaças de dois
apocalipses, um nuclear, da Guerra Fria, e outro da Bíblia e dos padres
do colégio, eu morria de medo do “fim do mundo”. Mas meu pai ria e me
dizia que, se todo mundo tem que morrer mesmo, era melhor que fosse todo
mundo junto, testemunhando um fabuloso espetáculo de destruição e de
fúria da natureza, de grandiosidade única: para ele, seria até um
privilégio.
Falando assim, parecia mesmo mais interessante do que um tiro, uma cama
de hospital ou uma doença dolorosa, embora na época eu acreditasse que
nós dois viveríamos para sempre.
Ao longo de outras décadas, aflito e apavorado com o golpe militar, a
crise do petróleo, a crise da dívida externa, a rebordosa do Plano
Cruzado, a moratória de Sarney, o confisco do Plano Collor, meu pai me
tranquilizava dizendo que o Brasil não ia acabar, e me mandava
trabalhar.
Agora que se anuncia um apocalipse político no Brasil, me lembro dele,
que certamente adoraria assistir. São centenas de parlamentares, de
todos os partidos, empresários, funcionários, roubando para fraudar
eleições e para enriquecer. E ainda nem começou a devassa no Dnit, em
Furnas, na Eletrobras, que, diz o delator Sérgio Machado, são muito mais
corruptas e vulneráveis do que a Petrobras. E ainda não se sabe nada da
delação de Marcelo Odebrecht e, quem sabe, de Eduardo Cunha.
No ponto em que estamos, nem novas eleições presidenciais são
suficientes. Só eleições gerais, para a Câmara e o Senado, podem dar
alguma esperança de saneamento e renovação, como uma Constituinte para
as reformas políticas que precisamos. Mas não com esses que estão aí,
que usam o mandato para atrapalhar a Lava-Jato e para manter os seus
privilégios, delinquências e impunidades. Eles não vão se suicidar pelo
Brasil.
Sim, a culpa é do sistema político perverso — e de todos que se
aproveitaram dele — e, por isso mesmo, são incapazes de reformá-lo. Não é
mais questão de esquerda ou direita, mas de certo ou errado. Talvez
depois de um apocalipse possa nascer um novo mundo.
extraídaderota2014blogspot





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