Marco Antonio Villa:O Globo
Vivemos a conjuntura mais complexa da história republicana. Michel Temer
governa um país cercado por crises por todos os lados. Tem bases
políticas frágeis no Congresso. Não numericamente, ao menos até o
momento. Mas no campo ético. Herdou o Congresso que ajudou o PT a
governar por 13 anos e cinco meses. Tem a tarefa de retirar o país da
tormenta, conduzi-lo a porto seguro, com a mesma caravela que serviu
fielmente ao projeto criminoso de poder.
Esta contradição vai marcar todo o período de seu governo, mesmo após a
recomposição ministerial, que deve ocorrer após o Senado julgar o
impeachment de Dilma Rousseff. Se não há qualquer possibilidade de o
projeto criminoso voltar ao poder, o que poderia levar o país à guerra
civil, é líquido e certo que Temer deve organizar um governo sob novas
bases quando for presidente de fato. O maior desafio será a convivência
com um Congresso sob a mira da Justiça e que deve tentar chantagear o
Executivo nas questões consideradas vitais para a nova administração
federal.
Até o momento, Temer tem conseguido gerir bem os momentos de tensão.
Acabou a organização do Ministério minutos antes da posse. Teve de fazer
inúmeras concessões. E vai ter de conviver com elas até o fim do
processo de impeachment. Não há saída. Sem isso, seria o caos, tanto de
ingovernabilidade, como de devolver o poder aos criminosos que
produziram o maior saque de recursos públicos da história da humanidade.
Na interinidade, o presidente vai conviver com os constantes ataques
petistas e de seus comparsas. E quando se aproximar a data do
julgamento, a tendência é de enfrentamento nas ruas. Buscam
desesperadamente um cadáver. Têm de transformar o governo em repressor.
Faz parte do script dos marginais que foram defenestrados do poder.
Caberá ao governo manter a ordem dentro dos limites constitucionais.
Ainda haverá muitas surpresas. A principal fonte deverá ser a operação
Lava-Jato. Não é descartada a prisão de Lula. Afinal, mantê-lo em
liberdade é colocar em risco as investigações, pois o ex-presidente pode
coagir as testemunhas, destruir provas. Mantê-lo solto também é um
perigo para a ordem pública. Ele estimula a guerra civil em todos os
seus pronunciamentos. Além da contradição de o chefe do petrolão
continuar a fazer política — leve, livre e solto — da mesma forma como
desempenhou a sua presidência e de sua criatura.
Se a prisão de Lula é condição sine qua non para a estabilidade das
instituições republicanas, a continuidade da Lava-Jato vai atingir o
coração do Congresso Nacional, suas principais lideranças, inclusive os
presidentes das duas Casas. Será mais um desafio para o governo Temer. E
isto em meio à mais profunda e longa crise econômica da nossa história —
quando o Congresso terá de ser acionado para aprovar medidas
emergenciais.
Deve o governo manter o funcionamento da máquina pública. Só isto não
basta. Tem de apresentar resultados imediatos — mesmo que aparentes,
pois as medidas econômicas não vão produzir efeitos a curto prazo. Daí a
necessidade de solucionar as crises na composição do Ministério
rapidamente, sem pestanejar. E ter cuidado na designação dos novos
ministros, mesmo tendo limites, derivados da composição — mais que
necessária — com a base congressual, especialmente a do Senado.
O maior desafio de Temer vai ser o de levar o governo até a aprovação do impeachment.
Terá de conviver com sucessivas crises. Parte delas produzidas pela
própria composição de forças que levaram à organização do governo
provisório; outras, devido à estrutura carcomida da República
brasileira. E vai sofrer diuturnamente ataques do PT e seus asseclas,
que vão buscar desgastar o governo e explorar suas vacilações.
Até o momento, Temer tem conseguido administrar os conflitos. Porém, é
necessário avançar e enfrentar os opositores. Uma saída conciliatória é
inviável. Passar à ofensiva é a melhor forma de fortalecer o governo e
garantir a aprovação do impeachment, sem ter de aceitar a chantagem de
senadores corruptos. E para isso tem de, inicialmente, convocar uma rede
nacional de rádio e televisão para expor — ainda que sem um
levantamento completo — a situação em que encontrou o governo. Não será,
infelizmente, necessário uma ampla pesquisa. Basta relatar, sucinta e
didaticamente, o que o PT fez com as empresas e bancos estatais e a
máquina estatal. Mostrar o descalabro e seu significado econômico-social
é a melhor defesa frente aos golpistas que rasgaram os ordenamentos
legais da República, seus princípios, sua história.
No campo econômico, o governo está indo bem. Tem conseguido restabelecer
a confiança e uma expectativa favorável às suas medidas. Na política
externa, os sinais também são positivos. Nos ministérios sociais, tem
tido dificuldades em administrar a herança recebida. O vaivém nas
medidas adotadas tem demonstrado falta de competência gerencial e,
principalmente, de firmeza. Ceder faz parte do jogo democrático, mas
ceder por mera pressão de grupelhos sem representação social efetiva é
fraqueza. E mais: estimula novos desgastes, criando a sensação de que a
administração é frágil, vacilante e que teme os “movimentos sociais”,
sustentados por generosas verbas durante 13 anos.
Em três semanas — com todas as dificuldades —, a presidência Temer
conseguiu estabelecer um novo rumo para o país. Não há saída responsável
para a crise mais grave da nossa história a não ser dando condições de
governabilidade. Imaginar um retorno de Dilma ao Palácio do Planalto
seria transformar Brasília em Caracas. É brincar com fogo. E pode acabar
mal.
extraídaderota2014blogspot




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