por Carlos Alberto Sardenberg O Globo
Tem a pergunta clássica: a crise política determina a econômica ou é o contrário?
A resposta de cima de muro é fácil: uma determina a outra. E não ajuda
muito. O que interessa saber é o seguinte: qual a chance de se iniciar
uma recuperação uma vez resolvido o processo de impeachment? Ou, a
economia volta a andar sem a crise política pelo menos na sua fase mais
aguda?
Com Dilma ficando, a chance é quase zero. Ficará um governo não apenas
minoritário no Congresso e sociedade, mas uma presidente que, na luta
contra sua demissão, hostilizou aqueles com os quais precisaria contar
na busca de recuperação.
A presidente reconhece a necessidade de colaboração e promete convocar
um pacto nacional se sobreviver ao processo de impeachment. Ao mesmo
tempo, porém, disse ontem, em conversa com jornalistas, que são
golpistas todos os empresários que defendem seu afastamento. Não é pouca
gente. Diversas associações e sindicatos patronais importantes apoiam
ostensivamente o afastamento de Dilma, denunciando sua “incapacidade” na
gestão econômica. Como a presidente poderia chamá-los para voltar a
investir?
Verdade que a presidente talvez nem queira saber dessa gente. O chefe seria Lula, com uma guinada à esquerda.
Por outro lado, ainda na entrevista de ontem, Dilma foi perguntada
justamente sobre essa guinada. E respondeu: Lula “pode falar o que pensa
porque está fora do governo”. E lembrou que Lula teve “outro
comportamento” quando foi presidente.
Nesse caso, Dilma só pode estar se referindo ao primeiro governo Lula,
que teve uma política econômica inteiramente ortodoxa. Ou seja, a
presidente está sugerindo que, no pós-impeachment, Lula, como chefe de
fato, poderia repetir aquela história.
Mas não pode. Primeiro porque o governo não tem mais dinheiro. Segundo,
porque a estabilidade fiscal que havia foi destruída por Dilma. E
terceiro, porque precisaria da confiança do chamado “mercado”, perdida
há muito tempo, de modo irremediável.
Tem mais. Perguntada se os cidadãos comuns que simplesmente se declaram
favoráveis ao impeachment também seriam golpistas, a presidente não
vacilou: “Se o cidadão ‘A’ defende essa posição, o cidadão é golpista”.
Ora, são 61% os brasileiros a favor do impeachment, segundo o mais
recente Datafolha. 61% de golpistas, acusa Dilma. Como fazer a tal
repactuação depois disso?
De modo mais amplo, como a presidente pode falar essas coisas?
É porque Dilma acha que a fala de um presidente — ou de um governante ou
de um político qualquer — é apenas isso, um discurso para a
circunstância, que não tem nada a ver com a tomada de posições ou
compromissos.
O exemplo maior foi a campanha de Dilma em 2014. Mentiu o tempo todo,
ganhou, fez o contrário do que dizia — e acha que está tudo bem. Não foi
por isso que terá perdido a credibilidade, mas porque é vítima dos
golpistas. E ainda ontem, a presidente citou Lula como exemplo de falar
uma coisa e fazer outra, na boa.
Tudo considerado, está claro que ela não tem a menor ideia de como sair
da crise econômica. Na verdade, ela nem entendeu ainda que a causa
primária dessa confusão é ela mesmo. Sua política econômica foi
destruidora.
Olhem em volta: déficit nas contas públicas, o que significa juros
altos, menos gastos, mais inflação e mais impostos. Dois anos de
recessão, pessoas ficando mais pobres. Passando de dez milhões de
desempregados. As principais estatais — Petrobras, Eletrobras, Correios,
que seriam motores do crescimento — estão quebradas. Fundos de pensão
das estatais, idem.
O que mostra o tamanho do problema de um governo Temer. O afastamento de
Dilma cria a chance de resolver uma questão essencial, a recuperação da
confiança. Mas não vem automaticamente. Vai depender de atitudes e
posições muito claras e viáveis.
Voltando ao começo: a gestão de Dilma levou a uma crise econômica, que
alimentou o processo de impeachment. Agora, é preciso resolver o
político para começar a tratar do econômico.
Desemprego no lucro
A presidente Dilma costuma fazer umas contas estranhas, mas essa do
saldo de empregos foi fora de série. A aritmética proposta: de 2011 a
2014 foram criadas 5,6 milhões de vagas; de 2015 para cá, 2,6 milhões
foram fechadas; logo, seu governo garante um saldo positivo de 2,6
milhões de empregos.
Estão reclamando de quê? — parecia dizer.
Além da insensibilidade — vai contar essa aos 10 milhões de
desempregados —, não faz o menor sentido. O natural — e o necessário —
de uma economia emergente é gerar empregos. “Só” não gerar já é um
pecado. Perder 2,6 milhões é tragédia, pessoal e social.
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