por Ruy Fabiano O Globo
Nada,
ninguém – direita, militares, burguesia, banqueiros, religiosos -,
infundiu tanto dano à causa esquerdista, inaugurada no Brasil em 1922,
com a fundação do Partido Comunista, como a Era PT, a cujo declínio
melancólico agora se assiste.
Não se sabe como será, daqui para a frente, a reconstrução de um
discurso que a prática desmoralizou. Há planos B – como a Rede de
Sustentabilidade, de Marina Silva, e o Psol -, mas terão que arcar com a
herança maldita do partido-mãe que os gerou, sustentou e abrigou. Não
será fácil.
Tudo o que o PT pregou, ao longo dos 22 anos em que foi oposição, negou
nos mais de 13 anos em que governa - do combate à corrupção à
transparência e eficácia gerencial. Não bastasse, além de quebrar a
economia, desmoralizou a própria atividade política, que hoje padece de
sua maior crise de credibilidade.
Os argumentos que agora evoca em defesa do mandato de Dilma contrariam
os que sustentou quando pediu o impeachment de todos os presidentes da
República desde o fim do regime militar. Todos. O único momento em que
seu pedido teve o endosso da sociedade foi no governo Collor. Nos
demais, falou sozinho.
É interessante e pedagógico conferir na internet – graças à qual a
amnésia nacional está sendo curada – o que diziam os líderes do PT ao
tempo em que intentaram derrubar outros presidentes da República. Há
vídeos para todo gosto, com falas de Lula, José Dirceu, José Genoíno,
Jandira Feghali (hoje, no PCdoB), entre outros. Impeachment, que ontem,
nas palavras de Lula, era um gesto popular de libertação, virou golpe.
Há um vídeo em que Lula diz que pede a Deus “que o povo brasileiro nunca
mais esqueça” que, assim como elegeu, pode depor seus governantes.
Deus, ao que parece, o está atendendo.
A esquerda, em 1964, saiu como vítima de um golpe; hoje, graças ao PT,
sai por tentá-lo, sem êxito. A frase do falecido Joelmir Beting, de que o
PT começou como um partido de presos políticos e acaba como um partido
de políticos presos, resume a ópera.
Ser apeada do governo por pedaladas fiscais – crime de responsabilidade,
de natureza administrativa – está saindo barato para Dilma, cujo
governo e ela própria possuem prontuário bem mais denso e abjeto. Basta
conferir o que já expôs a Lava Jato.
Lá, está claramente relatada parte do que se passou (os investigadores
dizem que o que se divulgou é apenas um terço do que já têm): o perfil
de uma organização criminosa, que se apossou do Estado, para não mais
largá-lo.
Onde havia um cofre, houve rapina, com cadáveres pelo caminho, como o
demonstram as investigações em torno do assassinato do ex-prefeito de
Santo André, Celso Daniel.
Além dele próprio, nada menos que sete testemunhas foram silenciadas
pela quadrilha, na véspera da chegada ao Palácio do Planalto, em 2002.
Lula, diz a Lava Jato, pagou R$ 6 milhões pelo silêncio de um
chantagista, Ronan Maria Pinto, hoje preso. Por quê?
Não há, pois, como dissociar, por mais que o tenha tentado o advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, as pedaladas do conjunto da obra. São os mesmos personagens.
Não há, pois, como dissociar, por mais que o tenha tentado o advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, as pedaladas do conjunto da obra. São os mesmos personagens.
Pouco importa que o pedido de impeachment em exame trate “apenas” das
pedaladas – e ainda que o STF, cada vez mais envolvido na política
partidária, queira impor tal limite -, a população, responsável por
levar o governo ao cadafalso, sabe com quem está falando. Sabe que fala
com a turma de Santo André – a turma do Mensalão, do Petrolão, do
Eletrolão, do BNDESão, dos fundos de pensão. Tudo muito “ão”.
Daí o insucesso de tentar focar apenas no que está no pedido em exame.
Há mais 36 pedidos na Câmara, que, em seu conjunto, contam a história
completa. Um deles, da OAB, dá a roupagem jurídica e empresta ao
processo sua grife histórica.
Dá o conteúdo penal ao processo. Estão na cadeia ex-dirigentes do PT,
junto com empresários que pontificaram nos seus governos. As delações
recentes evidenciam que as campanhas de 2006, 2010 e 2014 foram
financiadas com dinheiro roubado da Petrobras, que serviu até para
financiar pesquisas falsas de opinião.
A presidente Dilma, beneficiária de duas dessas campanhas, não pode
alegar que não sabia. Ainda que isso fosse verdade, não reduziria, nos
termos da lei, a responsabilidade que lhe cabe – e que já provocou a
responsabilização penal de outros candidatos, o mais recente deles o
ex-senador tucano Eduardo Azeredo, de Minas Gerais, condenado a 20 anos
de prisão.
Os parlamentares que votam amanhã sabem disso; sabem que é o todo – não
apenas a parte em exame - que move a população, aos milhões, Brasil
afora. Sabem o custo de decepcioná-la. A esquerda é herdeira desse
legado. Teve sua oportunidade no poder e mostrou que seu projeto de um
Brasil melhor esgotou-se no discurso, movido não a compromissos, mas a
propaganda.
Estima-se que o impeachment será aprovado, o que abre perspectiva a um
novo ciclo para o país, com muitas dificuldades e desafios. Se não for,
as dificuldades e os desafios serão ainda maiores, já que privados do
ingrediente mais importante em ocasiões como esta: a esperança.
extraídaderota2014blogspot





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