Boris Fausto: Folha de São Paulo
Prever o resultado da votação do próximo domingo (17), que selará o
destino do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, seria
temerário. É certo, porém, que estamos diante de um momento decisivo.
Sendo aprovado o prosseguimento do pedido, muito dificilmente o Senado
deixará de abrir o processo de julgamento, que imporá, de saída, o
afastamento da presidente por 180 dias.
Caso o julgamento seja barrado, é duvidosa a possibilidade de que novas iniciativas venham a prosperar.
A esta altura, não me parece ser o caso de esmiuçar a fundamentação
legal do pedido de impeachment, nem de insistir na referência à maior
crise da nossa história -crise econômica, política e ética-, para a qual
só os fundamentalistas do PT e seus aliados fecham os olhos.
Estamos diante de um governo cuja política econômica desembocou no
desemprego de quase 10 milhões de pessoas, numa inflação que ronda os
dois dígitos e numa contração da economia de 4% no ano de 2015, somada à
previsão de nova contração no ano corrente, em índice aproximado ao
anterior.
Mais útil será falar dos cenários que se abrirão nas duas hipóteses de
desfecho possíveis, mesmo com o risco de se ver contrariado pelos fatos,
risco inerente a quem se arrisca a analisar o Brasil volátil de nossos
dias.
É mais fácil pintar o cenário da permanência da presidente Dilma no
cargo do que o da hipótese inversa. Dilma continuaria a ser uma figura
muito impopular, que entregaria a Lula o comando informal do país.
Talvez não fosse tudo mais do mesmo -o que já é em si desolador -, mas
uma combinação do mesmo com o ainda pior.
Basta lembrar que Lula censurou publicamente a outrora candidata de sua
predileção por erros cometidos na política econômica, fazendo-nos temer
pela volta de um arremedo da "nova política econômica", como um
instrumento populista destinado a iludir o eleitorado, mais uma vez, nas
eleições de 2018. As pessoas lúcidas deste país, que são a maioria, não
merecem isso.
Analisar a conjuntura que se abriria após o afastamento da presidente
Dilma e a posse do vice Michel Temer, convém frisar, é mais complicado.
Para começar, o governo se verá a braços com um movimento social
organizado, que lhe fará oposição cerrada e irá gerar uma instabilidade
social cujo alcance ignoramos.
Há, por outro lado, um fator significativo em favor de Temer, trunfo do
qual poderá se valer nos primeiros tempos de um governo de transição. Os
ares da esperança iriam soprar e concorreriam para desfazer o
pessimismo generalizado que tem sido a marca dos dias atuais. Será
preciso aproveitar esse clima favorável no caminho da recuperação
econômica que será inevitavelmente longa, considerada a profundeza do
poço em que o lulopetismo nos lançou.
Ao mesmo tempo, e nisso a mobilização da cidadania é um fator
importante, será necessário não interromper a continuidade da luta
contra a corrupção, pois, como é claro, não alcançaremos o melhor dos
mundos apenas com o afastamento da presidente.
Optar pelo impeachment, acreditar numa esperança renovada, não significa
fechar os olhos à realidade. Muitos dos políticos que apoiam Temer
estão sob investigação. O caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha,
às voltas com uma emperrada Comissão de Ética, é o mais grave.
Terá o eventual presidente Temer força e coragem para não embarcar numa
operação legislativa de leniência ou em outros expedientes, que muitos
dos que o apoiam irão certamente cobrar? Só o tempo dirá.





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