por Vitor Hugo Soares Com Blog do Noblat - O Globo
Não poderia ter sido mais mofado e constrangedor. Na segunda-feira, 11,
noite histórica da aprovação, em Brasília, do relatório do deputado
Jovair Arantes – eficaz como injeção na veia e de rápido efeito na
indicação do impeachment da presidente Dilma Rousseff -, artistas,
intelectuais (Chico Buarque de Holanda à frente), sindicalistas e
empresários dos ramos da música, teatro, cinema, e do divertimento em
geral, se reuniram no Rio de Janeiro. Todos no entorno do do
ex-presidente Lula (ministro sem Pasta do governo cambaleante), e de
Juca Ferreira (ministro da Cultura e maestro da Lei Rouanet).
Realizava-se, em dois tempos, o festivo ato político denominado "Cultura
pela Democracia", em defesa do mandato de Dilma, convocado pela Frente
Brasil Popular, seguido de um protesto show nas proximidades dos Arcos
da Lapa. Tudo transmitido (a título de nova cadeia da legalidade) em
rede nacional pelas emissoras oficiais de televisão educativa, sob o
comando da TV Brasil. Da reunião interna, com cerca de cinco mil pessoas
na Fundição Progresso, ao comício de protesto sob o fabuloso cenário
iluminado de cartão postal no centro da Cidade Maravilhosa.
O mal estar, na famosa gafieira carioca dos anos Lula-Dilma, começou com
a fala de abertura, a cargo do autor e diretor teatral Aderbal Freire
Filho. Ao seu jeito e maneira de, também, reconhecido animador cultural –
em evidente contraste com a propalada "timidez" de Chico Buarque - ,
Aderbal emprestaria ao ato aquele tom meio fora de época, resultante da
mistura improvisada, e seguramente ensaiada às pressas, da "fórmula neo
petista de shows marqueteiros". Nos moldes do antigo Partidão, de
promover espetáculos políticos com tinturas literárias, musicais e
culturais. Mas tudo piorou mesmo com o orador seguinte: o também
polivalente ator, humorista e autor teatral, Gregório Duvivier.
O segundo dos dez programados para falar, ou fazer performance, no
"breve ato de coleta de assinaturas e lançamento de um manifesto "contra
o impeachment e pela democracia". Antes do protesto ser levado, - em
caminhada de seus participantes, (à frente José Celso Martinez,
sacerdote maior do chamado "Teatro do Oprimido", no Brasil dos anos
60/70) – para os Arcos da Lapa, fantástico espaço público histórico e
cenográfico, de fama internacional, ali bem pertinho da Fundição
Progresso.
No interior da famosa casa carioca de samba, dança e do concurso anual
de marchinhas carnavalescas, - diante de Lula, Chico e Juca Ferreira,
sentados na primeira fila do auditório montado no salão, Duvivier busca
alguma tirada de efeito para a sua fala. Afirma não conseguir resistir à
tentação de contar "uma piada picante". E repete a história dos casais
que se encontram "por infeliz coincidência" em um motel, cada marido
acompanhado pela mulher do outro. Superado o susto e desconforto do
primeiro momento, um deles sugere a maneira que ele julga "mais certa"
para acomodar as coisas, a troca das acompanhantes. O outro reage: "esta
pode ser até a forma mais certa de resolver isso, mas não é a mais
justa, porque você está saindo e eu estou entrando".
Fecham-se as cortinas, rapidamente, diria o genial Millôr Fernandes em
sua antiga e famosa coluna "Pif-Paf", na revista O Cruzeiro.
Duvivier falha, redondamente, na sua desastrada tentativa de motivar o
auditório. O caso do motel, além de antigo e manjado, não se encaixa,
também, na tentativa do humorista orador de estabelecer, em defesa da
mandatária do Palácio do Planalto – e de seu padrinho e chefe ali
presente -, uma espécie de comparação sobre quem ganha e quem perde com o
impeachment. A narrativa espanta e, visivelmente, constrange boa parte
da audiência, principalmente algumas das estrelas principais do ato
político-cultural, sentadas nas cadeiras da primeira fila, do imenso
salão transformado em palco e auditório.
A sambista Beth Carvalho dissimula mal e aparenta não prestar atenção ao
orador; o sisudo frei Leonardo Boff, ex-arauto da Teologia da
Libertação, alisa as barbas e cerra ainda mais o cenho, em sua
demonstração de desconforto. O compositor, escritor e cantor Chico
Buarque junta às mãos, como em oração e encena o ar malandro e maroto de
quem reza para que aquilo termine logo. O ex- presidente Lula balança o
corpo na cadeira em completo desassossego, vira-se de um lado para o
outro, principalmente quando Duvivier capricha nos detalhes mais
incômodos da piada de traição.
Finalmente, o humorista parece perceber que não está agradando. Grita
"não vai ter golpe", e deixa o palco de fininho. Cede a vez aos
advogados e juristas Juarez Tavares e Luís Moreira, ambos no mais
completo desalinho de trajes e discursos, réplicas cênicas quase
perfeitas de causídicos saídos de um romance do falecido escritor russo,
Máximo Gorki. Ou de uma peça do onipresente José Celso, nos "cruéis
anos 70" - apropriação da frase do jornalista Luís Augusto Gomes
(editor, na Bahia, do blog Por Escrito), ao fazer bem humorada narrativa
da viagem de uma "semana de estudos", em São Paulo, do "completo
alienado" aluno da UFBA, no tempo ditatorial em que o general Garrastazu
Médici mandava no Brasil.
Mas a transmissão da TV Brasil ainda mostraria a desconcertante índia
Sonia Guajajara, trazida do Maranhão para o ato no Rio. Ela conseguiu,
finalmente, levantar o ânimo dos presentes com seu crítico e retumbante
discurso, na frente de Lula, à semelhança da fala da "adversária à
favor", desfiada dias antes pela atriz Letícia Sabatella, diante da
mandatária Dilma Rousseff, em ato no Palácio do Planalto.
Depois veio a apoteose do ato no interior da Fundição Progresso. Nelson
Sargento, aos 91 anos, legendário sambista carioca, recebe o abraço de
Lula e Chico Buarque. Emocionado, diz que não iria conseguir mais dormir
se não tivesse comparecido. Finalmente, o abraço dos dois maiorais do
espetáculo se transfere para a veterana sambista Beth Carvalho, que se
confessa honrada com a deferência e, para terminar, canta sua
recentíssima composição:"Não vai ter golpe".
Amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas, diriam os franceses.
Mas ainda haveria o arremate: O ato público comandado pelo
ex-presidente, fundador do PT, diante dos Arcos da Lapa. Antes de
começar o seu discurso, Lula recebeu a notícia da derrota na Câmara, com
a aprovação, por 38 x 27 votos, do relatório que recomenda o
impedimento de Dilma, a ser votado em Plenário neste domingo, 17, apesar
dos esperneios, barganhas e apelos governistas. Lula joga a culpa pela
derrota em Eduardo Cunha e na "direita golpista". À moda da raposa, na
fábula das uvas não alcançadas, faz ironias e diz que não importa, "o
que vale mesmo é a votação de domingo". A conferir.
extraídaderota2014blogspot





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