Jornalista Andrade Junior

domingo, 17 de abril de 2016

"Lula e Chico no Rio: impeachment e caso de motel na Lapa",

por Vitor Hugo Soares Com Blog do Noblat - O Globo

Não poderia ter sido mais mofado e constrangedor. Na segunda-feira, 11, noite histórica da aprovação, em Brasília, do relatório do deputado Jovair Arantes – eficaz como injeção na veia e de rápido efeito na indicação do impeachment da presidente Dilma Rousseff -, artistas, intelectuais (Chico Buarque de Holanda à frente), sindicalistas e empresários dos ramos da música, teatro, cinema, e do divertimento em geral, se reuniram no Rio de Janeiro. Todos no entorno do do ex-presidente Lula (ministro sem Pasta do governo cambaleante), e de Juca Ferreira (ministro da Cultura e maestro da Lei Rouanet).
Realizava-se, em dois tempos, o festivo ato político denominado "Cultura pela Democracia", em defesa do mandato de Dilma, convocado pela Frente Brasil Popular, seguido de um protesto show nas proximidades dos Arcos da Lapa. Tudo transmitido (a título de nova cadeia da legalidade) em rede nacional pelas emissoras oficiais de televisão educativa, sob o comando da TV Brasil. Da reunião interna, com cerca de cinco mil pessoas na Fundição Progresso, ao comício de protesto sob o fabuloso cenário iluminado de cartão postal no centro da Cidade Maravilhosa.
O mal estar, na famosa gafieira carioca dos anos Lula-Dilma, começou com a fala de abertura, a cargo do autor e diretor teatral Aderbal Freire Filho. Ao seu jeito e maneira de, também, reconhecido animador cultural – em evidente contraste com a propalada "timidez" de Chico Buarque - , Aderbal emprestaria ao ato aquele tom meio fora de época, resultante da mistura improvisada, e seguramente ensaiada às pressas, da "fórmula neo petista de shows marqueteiros". Nos moldes do antigo Partidão, de promover espetáculos políticos com tinturas literárias, musicais e culturais. Mas tudo piorou mesmo com o orador seguinte: o também polivalente ator, humorista e autor teatral, Gregório Duvivier.
O segundo dos dez programados para falar, ou fazer performance, no "breve ato de coleta de assinaturas e lançamento de um manifesto "contra o impeachment e pela democracia". Antes do protesto ser levado, - em caminhada de seus participantes, (à frente José Celso Martinez, sacerdote maior do chamado "Teatro do Oprimido", no Brasil dos anos 60/70) – para os Arcos da Lapa, fantástico espaço público histórico e cenográfico, de fama internacional, ali bem pertinho da Fundição Progresso.
No interior da famosa casa carioca de samba, dança e do concurso anual de marchinhas carnavalescas, - diante de Lula, Chico e Juca Ferreira, sentados na primeira fila do auditório montado no salão, Duvivier busca alguma tirada de efeito para a sua fala. Afirma não conseguir resistir à tentação de contar "uma piada picante". E repete a história dos casais que se encontram "por infeliz coincidência" em um motel, cada marido acompanhado pela mulher do outro. Superado o susto e desconforto do primeiro momento, um deles sugere a maneira que ele julga "mais certa" para acomodar as coisas, a troca das acompanhantes. O outro reage: "esta pode ser até a forma mais certa de resolver isso, mas não é a mais justa, porque você está saindo e eu estou entrando".
Fecham-se as cortinas, rapidamente, diria o genial Millôr Fernandes em sua antiga e famosa coluna "Pif-Paf", na revista O Cruzeiro.
Duvivier falha, redondamente, na sua desastrada tentativa de motivar o auditório. O caso do motel, além de antigo e manjado, não se encaixa, também, na tentativa do humorista orador de estabelecer, em defesa da mandatária do Palácio do Planalto – e de seu padrinho e chefe ali presente -, uma espécie de comparação sobre quem ganha e quem perde com o impeachment. A narrativa espanta e, visivelmente, constrange boa parte da audiência, principalmente algumas das estrelas principais do ato político-cultural, sentadas nas cadeiras da primeira fila, do imenso salão transformado em palco e auditório.
A sambista Beth Carvalho dissimula mal e aparenta não prestar atenção ao orador; o sisudo frei Leonardo Boff, ex-arauto da Teologia da Libertação, alisa as barbas e cerra ainda mais o cenho, em sua demonstração de desconforto. O compositor, escritor e cantor Chico Buarque junta às mãos, como em oração e encena o ar malandro e maroto de quem reza para que aquilo termine logo. O ex- presidente Lula balança o corpo na cadeira em completo desassossego, vira-se de um lado para o outro, principalmente quando Duvivier capricha nos detalhes mais incômodos da piada de traição.
Finalmente, o humorista parece perceber que não está agradando. Grita "não vai ter golpe", e deixa o palco de fininho. Cede a vez aos advogados e juristas Juarez Tavares e Luís Moreira, ambos no mais completo desalinho de trajes e discursos, réplicas cênicas quase perfeitas de causídicos saídos de um romance do falecido escritor russo, Máximo Gorki. Ou de uma peça do onipresente José Celso, nos "cruéis anos 70" - apropriação da frase do jornalista Luís Augusto Gomes (editor, na Bahia, do blog Por Escrito), ao fazer bem humorada narrativa da viagem de uma "semana de estudos", em São Paulo, do "completo alienado" aluno da UFBA, no tempo ditatorial em que o general Garrastazu Médici mandava no Brasil. 
Mas a transmissão da TV Brasil ainda mostraria a desconcertante índia Sonia Guajajara, trazida do Maranhão para o ato no Rio. Ela conseguiu, finalmente, levantar o ânimo dos presentes com seu crítico e retumbante discurso, na frente de Lula, à semelhança da fala da "adversária à favor", desfiada dias antes pela atriz Letícia Sabatella, diante da mandatária Dilma Rousseff, em ato no Palácio do Planalto.
Depois veio a apoteose do ato no interior da Fundição Progresso. Nelson Sargento, aos 91 anos, legendário sambista carioca, recebe o abraço de Lula e Chico Buarque. Emocionado, diz que não iria conseguir mais dormir se não tivesse comparecido. Finalmente, o abraço dos dois maiorais do espetáculo se transfere para a veterana sambista Beth Carvalho, que se confessa honrada com a deferência e, para terminar, canta sua recentíssima composição:"Não vai ter golpe".
Amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas, diriam os franceses.
Mas ainda haveria o arremate: O ato público comandado pelo ex-presidente, fundador do PT, diante dos Arcos da Lapa. Antes de começar o seu discurso, Lula recebeu a notícia da derrota na Câmara, com a aprovação, por 38 x 27 votos, do relatório que recomenda o impedimento de Dilma, a ser votado em Plenário neste domingo, 17, apesar dos esperneios, barganhas e apelos governistas. Lula joga a culpa pela derrota em Eduardo Cunha e na "direita golpista". À moda da raposa, na fábula das uvas não alcançadas, faz ironias e diz que não importa, "o que vale mesmo é a votação de domingo". A conferir.
extraídaderota2014blogspot

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