Roberto Freire: Com Blog do Noblat - O Globo
Tão desonesta e falaciosa quanto a tese de que o processo de impeachment
contra Dilma Rousseff configuraria um “golpe” é a afirmação de que
todos os grupos que se opõem ao desgoverno lulopetista seriam
conservadores, reacionários e representariam correntes de pensamento
situadas mais à direita no espectro político-ideológico.
É natural que, em um universo no qual nove de cada dez brasileiros
rejeitam o atual governo e mais de 70% da população deseja o afastamento
da presidente da República, se façam presentes forças políticas mais
conservadoras, o que é legítimo e próprio da democracia. Entretanto, ao
contrário do que quer fazer crer o PT em mais uma tentativa de confundir
a opinião pública, a luta democrática e constitucional pelo impeachment
abrange também uma parcela significativa da esquerda que jamais se
enxovalhou com a corrupção deslavada dos governos de Lula e Dilma.
Os dois mais tradicionais partidos da esquerda brasileira, o PPS
(legítimo sucessor do Partido Comunista Brasileiro) e o PSB, são os
principais exemplos de que grande parte do campo progressista defende o
impedimento de Dilma como condição essencial para o país superar a crise
e retomar o caminho do desenvolvimento. O alinhamento entre PSB e PPS
em torno do impeachment nos remete a inúmeros capítulos marcantes da
história brasileira em que as duas legendas estiveram lado a lado. A
“Frente do Recife”, movimento que uniu socialistas e comunistas e serviu
como grande inspiração no início de nossas vidas políticas, foi
hegemônica em Pernambuco da redemocratização de 1946 até o golpe militar
de 1964, repercutindo nacionalmente entre as forças democráticas de
esquerda.
Após o golpe, os dois grupos se integraram às trincheiras do Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), em oposição à ditadura militar que
perduraria por mais de 20 anos. A parceria se repetiu em outros momentos
fundamentais como a luta pela anistia, a campanha das Diretas Já, a
eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, o voto favorável à
Constituinte, o impeachment de Fernando Collor e, especialmente, o apoio
ao governo do presidente Itamar Franco. Nas eleições de 2014, PSB e PPS
estiveram juntos novamente defendendo a candidatura do saudoso Eduardo
Campos à Presidência da República.
Além da emblemática união entre os dois partidos, o impeachment de Dilma
é abraçado por nomes importantes da esquerda democrática e da
social-democracia, entre os quais Fernando Gabeira, Cristovam Buarque,
Ferreira Gullar, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva e
seu partido, a Rede Sustentabilidade, e também o PV, com toda a sua
representatividade no campo progressista. Registro ainda o meu
reconhecimento pessoal a duas jovens e promissoras lideranças do PSB que
vêm se manifestando de forma firme e corajosa em defesa do impedimento:
o prefeito do Recife, Geraldo Julio, e o governador de Pernambuco,
Paulo Câmara.
Ressalte-se, por fim, o posicionamento de setores cada vez mais
expressivos do PMDB que votarão pelo impeachment – honrando a tradição
democrática e de independência do velho MBD de Ulysses Guimarães –,
simbolizados na figura exemplar do deputado Jarbas Vasconcelos.
É importante ter a consciência de que caberá a esse conjunto de forças
políticas dar sustentação e apoio ao governo que emergirá após o
provável impeachment de Dilma, assim como ocorreu em 1992. Não podemos
repetir o equívoco histórico do PT, que participou ativamente do
impedimento de Collor, mas se recusou a integrar o governo de transição
conduzido por Itamar. Uma eventual nova gestão terá o desafio de levar a
cabo uma série de reformas estruturantes que não podem mais ser adiadas
e, para tanto, precisará da contribuição de todos aqueles
verdadeiramente comprometidos com o país.
Na histórica votação que deve ocorrer no próximo domingo, a esquerda
democrática caminhará unida pelo fim de um governo que desmoralizou as
forças progressistas por todo o desmantelo, a desesperança e a
irresponsabilidade. Existe uma esquerda decente, digna, honrada e
genuinamente preocupada com os rumos do Brasil. Norteados pelos mesmos
princípios que nos uniram em tantos momentos, votaremos em consonância
com o desejo da sociedade, seguindo a Constituição e respeitando a
democracia, e escreveremos mais uma bela página de nossa história de
lutas em comum. Impeachment já!
extraídaderota2014blogspot





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