Bolívar Lamounier:
No
tempo em que os animais falavam, os ideólogos esquerdistas já liam
muito. Liam só marxismo, é claro, mas liam; não é dizer pouco. Com o
tempo, o hábito desapareceu; os mais jovens, nem marxismo leem. Lula é
da geração mais velha, mas, por razões diferentes, também nunca leu
nada.
É por isso que as
esquerdas atuais desconhecem um dos trechos mais valiosos, senão o mais
valioso, da literatura marxista: o chamado “testemunho político” de
Vladimir Ilyich Lenin, o grande líder da revolução russa de 1917. No fim
de 1922, já muito doente, Lenin entregou a Krupskaia, sua mulher, uma
carta manuscrita a ser levada ao conhecimento do PC-URSS em seu próximo
Congresso. O objetivo era advertir a alta direção comunista contra os
riscos representados pelo crescente poder de Stalin dentro do partido e
na máquina do governo.
A importância histórica
da mencionada carta deveu-se a diversas razões, mas o que aqui quero
destacar é a singularidade do enfoque adotado por Lenin. Até então,
nenhum teórico comunista se permitira enfatizar traços de personalidade
ao analisar uma situação política; nem o húngaro Lukács, nem o alemão
Karl Korsch, aparentemente mais flexíveis, ou menos aprisionados na
camisa-de-força confeccionada por Marx e Engels tiveram tal ousadia – ou
se deram conta do grau de sua própria obtusidade.
E eis que Lenin, ninguém
menos que ele, escreve o seguinte: “A questão da personalidade poderia
parecer secundária, ele acrescentou, mas era uma daquelas coisas
secundárias que podem acabar adquirindo uma significação decisiva”.
Preocupado com o futuro do Partido e da própria Revolução, Lenin optou
pelo prisma psicológico para tentar descortinar a evolução dos
acontecimentos. Havia se convencido – como escreve o grande historiador
Richard Tucker – de que certos traços de caráter de Stalin – notadamente
sua “rudeza” e sua tendência a se orientar de maneira “maliciosa” nas
questões políticas – tornavam perigosa a continuação dele no poderoso
cargo de secretário geral”.
Lenin recomendava, pois, a
substituição de Stalin naquele cargo por alguém “mais tolerante, mais
leal, mais cordial, que tenha mais consideração por seus camaradas, que
não seja tão caprichoso, etc”. Krupskaia levou o documento aos
principais dirigentes do Partido após a morte de Lenin em janeiro de
1924; estes, porém, não levaram em conta a recomendação de Lenin,
decisão que muitos deles acabaram pagando com a vida.
Por que cargas d’água
estarei eu a recordar os fatos acima neste 14 de abril de 2016, quando
tudo no Brasil gira em torno do impeachment de Dilma Rousseff?
Por uma razão bem
simples: a votação do próximo domingo no plenário da Câmara Federal
deverá por fim a uma farsa cuidadosamente arquitetada, pela qual o
Brasil está pagando e pagará ainda por alguns anos um preço altíssimo.
Um retrocesso econômico terrível, responsável por um aumento brutal do
desemprego e pelo empobrecimento de milhões de famílias que já antes
sobrevivam com poucos meios.
A farsa a que me refiro
vem de longe, mas pode ser flagrada em três momentos. Primeiro, lá
atrás, quando Lula mandou Dilma Rousseff presidir o Conselho de
Administração da Petrobras. Que avaliação e que objetivo o terão levado a
fazer isso? Descarto liminarmente a hipótese de que avaliasse Dilma
Rousseff como uma pessoa capaz de exercer tal função. Conheço e respeito
muita gente que vê Lula como um político de grande inteligência; no que
me toca, data vênia, vejo-o como o protótipo do populista
latino-americano, aquele tipo que, inteligente ou não, pauta sua atuação
na vida pública muito mais por uma malícia aprimorada nos meios
sindicais ou estudantis que por uma concepção minimamente civil da vida
política.
Acima de tudo, Lula é
isso: um esperto. Penso que nomeou Dilma Rousseff para a Petrobras ou
por considerá-la incapaz de descobrir a teia de assaltos que lá se
montara, ou, ao contrário, por confiar em que ela a desvendaria, mas não
se furtaria a dançar conforme a música.
O segundo momento é a
eleição de 2010, à qual farei apenas uma referência sucinta. Lula tinha
uma certeza e um objetivo. A certeza era a de que, com seus próprios
recursos, Dilma não se elegeria nem para a Câmara Municipal de Porto
Alegre, o município onde residia. Mas ele, Lula, com mais de 80% de
popularidade, dinheiro jorrando da cornucópia da Petrobras e João
Santana a tiracolo, a conduziria ao Planalto com um pé nas costas. Seu
plano só falharia se ele tivesse escrúpulos, pois ofensa à lei não
haveria nenhuma, e o candidato adversário não poderia resistir à ação
combinada dos três fatores que venho de mencionar. Docemente
constrangida, Dilma, com seu quê de farsante, aquiesceu em participar da
farsa.
E, claro, havia um
objetivo: evitar o surgimento de um rival de peso dentro do PT (ou do
“campo popular”), como seria o caso de José Dirceu, por exemplo. Não,
Lula precisava de alguém que combinasse as virtudes de um poste com as
de um cão: a passividade do primeiro e a fidelidade do segundo. Dilma
era a escolha perfeita. O plano só não funcionou como Lula esperava
porque, ao chegar ao governo, Dilma quis mesmo acreditar que possuía
conhecimentos econômicos.
O terceiro momento, é
escusado lembrar, foi a eleição de 2014. Àquela altura, a catástrofe
econômica já começava a comer solta. A questão central era (como
continua a ser) a deterioração das contas públicas. Em qualquer país
onde a democracia e processo eleitoral sejam levados um pouco mais a
sério, Dilma teria que admitir na campanha a inexorabilidade de algum
ajuste. Se optasse por fazê-lo, certamente iria “tergiversar” um pouco,
isso é de sua natureza e em certa medida inevitável em campanhas
eleitorais.
Mas não, no leme estavam
Dilma, Lula e João Santana, um trio adepto não somente da malícia, mas
também da prepotência como base do agir político. Eis porque a
presidente, a celebrada gestora pública, a nunca assaz louvada
economista, teve o desplante de se apresentar na TV como fiadora da
normalidade econômica, da desnecessidade de sacrifícios,
responsabilizando de antemão o seu adversário pela “descabida” proposta
de ajustar as contas públicas, vale dizer, de perversamente suprimir
direitos dos trabalhadores e do povo.
Esse o epílogo, que se
encerrará, assim o queira Deus, no próximo domingo. E queira Deus que
seja o fim dessa época de farsas e farsantes que o nosso país,
organizado segundo as regras da democracia representativa, se viu
obrigado a tolerar.
extraídadecolunadeaugustonunesopiniaoveja





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