Bolívar Lamounier :Folha de São Paulo
Houve golpe? É claro que houve. Em 2010, no plano que urdiu com requinte
de profissional, Lula só cometeu um erro: subestimou a incompetência de
Dilma Rousseff. E se esqueceu de que a mistura de incompetência com
"ideias próprias", como ocorre no caso de Dilma, costuma ser letal.
Em 2014, Lula deve ter ficado aliviado ao saber que sua pupila insistia
em continuar na Presidência. Com a economia fazendo água, esperar até
2018 passava a ser um bom negócio.
Reelegê-la não seria problema: os votos, ele mesmo providenciaria, como
fizera em 2010; a tarefa de ocultar a real situação da economia, por
meio de artifícios publicitários ou de mentiras, pura e simplesmente,
João Santana tiraria de letra. Para financiar a campanha, havia o
"odebrechtoduto", como hoje todos sabemos, entre outras possibilidades.
Só que, dessa vez, Lula cometeu alguns erros a mais. Não percebendo o
alcance das manifestações de 2013, certamente pensou que a sociedade
brasileira continuaria, bovinamente, a acreditar em qualquer coisa que
ele dissesse.
Desafeiçoado a estudar os problemas do país com a profundidade
necessária, não se deu conta de que a situação econômica era
catastrófica, com centenas de milhares de trabalhadores adicionados ao
rol dos desempregados, muitos com pouca chance de reencontrar trabalho.
Por último, instalado em sua suíte do Golden Tulip, deve ter tido um de
seus frequentes surtos de onipotência, certo de que conseguiria comprar
os votos necessários para impedir a abertura do processo de impeachment
pela Câmara.
Lula subestimou o instinto de sobrevivência e, por que não dizê-lo, os
brios dos deputados, a maioria dos quais ele sempre considerou
"picaretas". Teve de aprender que o "Diário Oficial" não corrige erros
crassos de política econômica, nem serve como bálsamo para insultos e
truculências.
A esta altura, o pior erro que Lula e o PT podem cometer é subestimar a
contundência da derrota que sofreram. Um Supremo Tribunal Federal com 8
de seus 11 ministros nomeados por ele e Dilma rejeitou recurso
indevidamente impetrado pelo advogado-geral da União em sua desesperada
tentativa de suspender a votação do último domingo (17).
No plenário, o impeachment teve 367 votos, uma folga de 25 sobre os 342
necessários. Numa coisa, Lula e o PT estavam certos -a praça é do povo,
como o céu é do avião; resta saber se, do alto de sua prepotência,
aprenderam que o povo é muito maior que eles.
Os 367 votos a favor do impeachment representaram muito mais do que uma
dura reprovação à incompetência e às ilegalidades do governo Dilma.
Representaram um contragolpe democrático. Ainda não sepultaram a farsa
que Lula iniciou em 2010, mas são um passo decisivo nessa direção. A pá
de cal será o julgamento no Senado.
A sociedade brasileira precisa urgentemente reencontrar seu eixo:
reativar a economia, recriar empregos, livrar-se do sentimento de
vergonha que a corrupção da era petista lhe impingiu.
Dilma, o melhor que tem a fazer é renunciar. Entender que sua carreira foi como a viúva Porcina, aquela que foi sem nunca ter sido.
Quanto custou a farsa iniciada em 2010, da qual Dilma, de bom grado,
aquiesceu em participar? Quem vai arcar com a fatura? A resposta a essas
perguntas, quem as pode dar são os milhões de trabalhadores que ela,
com suas alucinações econômicas, jogou na rua da amargura.
extraídaderota2014blogspot





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