por Ruy Fabiano Com Blog do Noblat - O Globo
O PT acabou, mas não o projeto revolucionário que intentou – e
fracassou. Diversas etapas, no entanto, foram cumpridas, entre as quais o
aparelhamento das entidades da sociedade civil e da máquina
administrativa do Estado, nos níveis regional e federal.
Não será fácil desmontá-lo. É um patrimônio, cuja construção precede a
chegada do partido ao poder. O que se constata, sobretudo após a
derrocada de Lula, é a tentativa de mudar a fachada, migrar o projeto
para outra sigla.
Há as periféricas – PSTU, PCdoB, PSOL, PSB -, mas nenhuma com o
potencial eleitoral da Rede de Sustentabilidade, de Marina Silva, com
seus mais de 20 milhões de votos, obtidos nas duas últimas eleições. A
Rede já recolhe sobreviventes do Titanic lulista.
Marina é fundadora do PT e só deixou o partido por não encontrar espaço
para suas pretensões presidenciais. Não houve – nem há - qualquer
divergência ideológica. Ela mesma, reiteradas vezes, já manifestou, além
de imensa admiração por Lula, saudades dos tempos em que, ao lado de
Chico Mendes, no Acre, deu início ao partido e à CUT. Está, pois, na
gênese de tudo isso.
O que dificulta a percepção dessa identidade é que o discurso de Marina é
mais difuso: vai do mais abstrato ambientalismo até questões de fundo
moral, que explora a descrença popular na política e acena com mudanças
que não se explicitam. Contrapõe, por exemplo, a reforma política à
reforma “da” política, não esclarecendo exatamente o que a contração da
preposição “de” com o artigo “a” distingue uma coisa da outra.
Fala, por exemplo, em “aeróbica da musculatura do acerto”, e em combater
a “musculatura do erro”. Coisas do gênero, que, ditas de um palanque,
impressionam, mas que, concretamente, não sinalizam nada, nenhum
projeto. Ela é contra o mal e se apresenta como a face do bem. E basta.
Quando o discurso evangélico conflita com a agenda comportamental da
esquerda – casos da legalização do aborto e do casamento gay -, muda de
assunto ou diz que uma coisa é o Estado laico e outra sua religião –
embora sua religião não distinga uma coisa da outra e abomine a agenda
dos seus (dela, Marina) aliados.
A demonização de uma atividade - no caso, a política – por alguém que a
pratica há décadas e dela vem extraindo dividendos é, em si, um
paradoxo. Mas o eleitor brasileiro é mais emocional que racional. Não
percebe, nem liga para paradoxos.
Marina se vale de simbolismos e metonímias, sem descer a fundo nos
conflitos e complexidades que o país vive. Louva tanto o sociólogo
Fernando Henrique quanto o “operário” Lula, evitando o divisionismo
classista, pobres versus ricos, sulistas versus nordestinos, explorado
pelo PT.
Mas o fundamentalismo é o mesmo, expresso na ideia revolucionária de que
é preciso inventar outra nação, outro povo e que os cinco séculos
anteriores foram uma soma de equívocos, que precisam ser revogados – o
“nunca antes neste país”, bordão de Lula. O PT é o socialismo carnívoro;
Marina, o vegano.
Não é casual que Marina não tenha manifestado nenhuma opinião a respeito
da Lava Jato. Considera o impeachment de Dilma sem fundamento e só
recentemente passou a defender a cassação do mandato via TSE, que
contempla o seu projeto eleitoral.
Observem o movimento não só de petistas, como o senador Paulo Paim, mas
de gente do PSOL, como o senador Randolfe Rodrigues, em direção à Rede. A
própria Martha Suplicy, petista histórica, co-fundadora do partido em
São Paulo, cogitou de aderir a Marina. Acabou optando pelo PMDB, por lhe
oferecer melhor estrutura para sua candidatura à prefeitura de São
Paulo.
A esquerda pragmática já desistiu do PT e procura recriar-se com Marina e
sua Rede. O próprio Rui Falcão, presidente do PT, ciente do estigma que
a legenda hoje carrega, já defende que o partido se dilua numa frente
de esquerda nas próximas eleições, que permita que seus candidatos
ocultem a estrela outrora tão festejada.
O declínio de Lula já não deixa dúvida. Sem uma liderança – pior: com
uma ex-liderança que hoje expressa a farsa de um paraíso perdido -, o
partido faz uma defesa quase burocrática de seu chefe, ciente de que sua
carreira chegou a um ponto de não-retorno. A defesa do mandato de Dilma
é circunstancial, até que outra porta se abra e o projeto
revolucionário encontre sua continuidade em outra legenda. A Rede de
Marina é a opção.
extraídaderota2014blogspot





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