editorial de O Globo
Confiante no diagnóstico míope da falta de oferta de crédito, governo mobiliza até a poupança do trabalhador em operações que podem desestabilizar Fundo
Na Medicina, um diagnóstico errado é o começo de uma sucessão de
problemas. No mundo econômico, não é muito diferente. Isso acontece no
momento, a partir da convicção formada no Planalto, e entre
lulopetistas, de que falta crédito para fazer o consumo voltar a
crescer, ativar a produção e, assim, gerar tributos para que o governo
comece a equilibrar as contas públicas.
Dilma e PT querem escapar do ajuste fiscal que fira “direitos dos
trabalhadores” e corte gastos ditos sociais. Com muito esforço, a
presidente já admite a reforma da Previdência, dada a sua óbvia
necessidade — aposenta-se muito cedo no Brasil e cresce mais o número de
aposentados do que de gente na ativa que contribui para o INSS.
Mas — outra obviedade — desligar os mecanismos insustentáveis de
indexação pelo salário mínimo ou inflação de cerca de 70% dos gastos
públicos primários (aposentadorias e gastos ditos sociais), disso ela
não quer ouvir falar.
Volta-se ao diagnóstico de 2009, na explosão da crise mundial, de se
inundar o sistema financeiro de crédito. Até recursos do FGTS entraram
no mais recente pacote creditício.
Nenhuma surpresa, porque recursos do Fundo são essenciais na área habitacional e no financiamento da infraestrutura urbana.
A questão é a forma como o governo convoca agora o FGTS em mais este
esforço de jogar crédito numa economia em recessão, com famílias
endividadas, inadimplentes, e empresas em fase de corte de despesas e
investimentos.
Dos R$ 83 bilhões deste último pacote, R$ 49 bilhões sairão, de alguma
forma, do FGTS, em que está a poupança de todos os trabalhadores
formais. Visto como arriscado por analistas, o uso de recursos do Fundo
ocorre num momento de alto desemprego. Portanto, quando aumentam os
saques no FGTS e caem as contribuições. Entre janeiro e novembro do ano
passado, em comparação com 2014, a redução foi de 20%, ou menos R$ 3,9
bilhões. Garante-se que há reservas suficientes para atender à qualquer
maior pressão de saques. Com esta finalidade, estariam reservados R$
38,4 bilhões. Os temores se voltam para um prazo mais longo. O governo
decidiu, por exemplo, mobilizar o Fundo para servir de garantia do
crédito consignado. Critica-se, porque o segurado poderá ficar com o
dinheiro preso enquanto o empréstimo não for resgatado.
Outra decisão controversa é levar o FGTS a adquirir R$ 10 bilhões em
Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), a fim de oxigenar
bancos, principalmente a Caixa Econômica. Mais: o título renderá ao
Fundo 7% ao ano, contra 14,25% da taxa básica, pela qual ele poderia
aplicar os recursos. É preocupante que a estabilidade a médio e longo
prazos do FGTS possa correr riscos a partir de um diagnóstico
discutível, como o de que falta oferta de crédito. Quando o que
escasseia é o tomador de empréstimos, inseguro diante da falta de
perspectivas.
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