editorial da Folha de São Paulo
Encerrado o feriado de Carnaval, a maioria dos brasileiros voltou ao
trabalho na Quarta-Feira de Cinzas ou retomará as atividades nesta
quinta (11). Os congressistas, contudo, ainda que pagos com os recursos
do contribuinte, se julgam no direito de esticar o imerecido descanso
até a próxima semana.
Os atuais legisladores poderiam argumentar que não inventaram a prática.
Trata-se de costume arraigado entre deputados e senadores, que há muito
não perdem oportunidade de enforcar dias de labuta.
Pode ser. Nem por isso, no entanto, a tradição seria aceitável, e
repeti-la mereceria críticas em qualquer situação -ainda mais agora,
quando o país se encontra em momento angustiante.
Como se não houvesse uma crise política em curso; como se a economia não
sentisse os efeitos nocivos de uma recessão profunda; como se essas
circunstâncias não se alimentassem mutuamente e como se parte da solução
não dependesse do Congresso, os parlamentares deixaram para o dia 16 de
fevereiro, terça-feira que vem, o início de fato do ano legislativo.
Na semana passada, quando as duas Casas voltaram das férias,
realizaram-se apenas duas votações em plenário. Na Câmara, o governo
sofreu derrota na medida provisória sobre ganhos de capital; no Senado,
aprovou-se o Marco Legal da Primeira Infância.
O começo de 2016 só não passou sem outros eventos dignos de nota porque
um aliado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aproveitou a
modorra para devolver quase à estaca zero o processo de cassação do
peemedebista, que empaca no Conselho de Ética.
Cunha, a propósito, promete emperrar os trabalhos da Câmara pelo menos
até que o Supremo Tribunal Federal julgue os recursos contra a definição
do rito de tramitação do processo de impeachment da presidente Dilma
Rousseff (PT).
Tudo o mais sugere que o presidente da Câmara conseguirá implantar sua
agenda sem grandes dificuldades. Até o dia 17, os deputados do PMDB
estarão preocupados somente com a disputa pelo cargo de líder do partido
na Casa.
Concorrem Leonardo Picciani (RJ), aliado do Planalto, e Hugo Motta (PB), apadrinhado de Cunha.
No dia seguinte, abre-se a janela de um mês para que deputados troquem
de legenda sem o risco de infringir as regras de fidelidade partidária.
Pode-se imaginar que o Congresso se transformará nesse período em
verdadeiro balcão de negócios parlamentares.
Enquanto isso, projetos de lei importantes para o país nem entrarão na
pauta dos congressistas, sempre mais preocupados com seus próprios
interesses -do troca-troca partidário à folia carnavalesca.
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