por Carlos Heitor Cony Folha de São Paulo
Quarta-Feira de Cinzas. Para os católicos, uma data importante, é dia de
meditação e preces no qual se pede perdão pelos pecados cometidos
durante o Carnaval. Nas igrejas os sacerdotes levam um pouco de cinza e
com ela fazem uma cruz na testa dos devotos. É uma advertência de que,
apesar de nossas alegrias profanas e folias pecaminosas, todos
terminaremos em cinza, "memento homo quia pulvis est et in pulvis
reverteris" (lembra-te, homem, que és pó e ao pó tornarás).
Padre Arnaldo era nosso professor de grego. Autor da gramática adotada
no seminário. Um pouco extravagante, cochilava durante as aulas e
cultivava fúrias apocalípticas.
Nas Quartas-Feiras de Cinzas entregava-se a uma cólera assombrosa. Não
morava conosco, mas no Méier. Precisava tomar dois bondes para chegar ao
Rio Comprido, onde o cardeal Leme fundara o Seminário de São
José, no qual passei os dez anos mais importantes de uma vida desimportante.
Os seminaristas daquele tempo gostavam de dar apelidos aos professores.
Um deles, que ensinava geografia, tinha o apelido de "Coordenada
Terrestre". Padre Arnaldo era o "Homero do Méier". De temperamento
sanguíneo, no dia dedicado ao arrependimento pelos pecados cometidos,
entrava nos bondes e em todos os lugares que frequentava com voz
exaltada e gritava: "Cinzas e nada mais!". Este era o seu apelido que se
revezava com o "Homero do Méier".
Quando entrava na sala onde daria aula, com a mesma fúria cumprimentava
os alunos com a sua advertência: "Cinzas e nada mais", só que em grego.
extraídaderota2014blogspot





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