por Fábio de Biazzi O Estado de São Paulo
O único impacto prático da morte de Fidel Castro foi que finalmente
puderam ser publicados todos os obituários a ele dedicados e escritos há
décadas. Admiradores e detratores do cubano podem agora se dedicar à
preparação do obituário do irmão Raúl, presidente de Cuba desde 2008.
Incerta é apenas a morte do regime instaurado pelos dois e pelo
impiedoso Che Guevara em 1959, que desde então condenou os cubanos à
estagnação social e econômica.
Em 2012 a The Economist destacou
os movimentos de reforma empreendidos por Raúl Castro para dinamizar
uma economia que tem levado os cubanos a uma vida de restrições e nem
mais sustenta seus outrora afamados níveis de educação básica e serviços
sociais. A revista afirma que ele “parece estar profundamente
consciente de que o comunismo cubano está vivendo seus estertores”. No
entanto, não se cogita se as reformas vão permitir alguma liberdade de
expressão, maiores oportunidades econômicas ou, ainda, se haveria
grandes mudanças na condução da política. Mesmo que não seja algum outro
Castro, é muito provável que o sucessor de Raúl saia de sua atual
camarilha.
As sucessões são sempre momentos muito delicados para regimes
totalitários, pois dependem da transferência do apoio militar, político,
econômico e popular de um tirano instalado por décadas no poder para um
filho, parente ou apadrinhado. Os caminhos e segredos dos laços de
confiança e outros interesses de poder – particularmente a chave do
cofre – precisam ser transmitidos a tempo e em detalhes, sob o risco de o
“bastão” cair na passagem. Os mecanismos de repressão e cooptação têm
de estar mais aguçados e ativos que nunca, sem falar da máquina de
propaganda. Para garantir seu sucessor um ditador precisa assegurar-se
de que o poder seja transferido em cada uma das três formas destacadas
pelo economista John Kenneth Galbraith: coerção, recompensa e
condicionamento.
Apesar de não sabermos o que será de Cuba nos próximos anos e de sua
relativa insignificância no cenário mundial, temos certamente o que
aprender com sua história sob o domínio dos Castros, infelizmente muito
menos por inovações e muito mais pela repetição de um padrão conhecido e
há muito denunciado. Como outros líderes farsantes e totalitários,
Fidel assumiu o poder carregando expectativas e sonhos da população para
depois manobrar indefinidamente com o personalismo, as mentiras, a
destruição das instituições – e sua substituição pelo aparato de
repressão – e a divisão da população entre os fiéis e os “traidores”,
que morreram aos milhares.
Não resta dúvida sobre a tirania do regime liderado por Fidel. São
inquestionáveis as dezenas de milhares de vidas ceifadas em nome da
“Cuba libre”, executadas ou afogadas tentando alcançar a costa
americana. Por conta desses números, el comandante en jefe tem
garantido seu lugar na história ao lado de outros tiranos como o
camarada Stalin, o Führer, Il Duce, O Grande Timoneiro e o caçula da
turma, o lunático Supremo Líder Kim Jong-un. Não foi o maior déspota do
mundo, mas certamente detém o primeiro lugar nas Américas, como bem
lembrou o brilhante José Nêumanne em seu blog no site do Estadão.
Cabe neste momento fazer algumas perguntas: como parcos avanços sociais e
o nivelamento da população numa subsistência precária podem justificar a
morte de dezenas de milhares de pessoas e a manutenção do povo acuado e
aterrorizado em seu próprio país? Como alguém pode romancear a
biografia de Fidel e olhar seu legado positivamente? O que move muitos
políticos, cientistas sociais, jornalistas e outros “intelectuais”
brasileiros a fazer reverência a alguém que transformou seu país numa
prisão (para usar a imagem cunhada por Roger Cohen, colunista do New York Times)?
Seria estatisticamente improvável que essa admiração viesse de alguma
forma de sociopatia – cuja principal característica é a incapacidade de
sentir empatia e se pôr no lugar dos cubanos mortos e de sua família. Se
é assim – e sendo, então, os nossos fãs do máximo líder
psicologicamente sãos –, o que passaria na cabeça deles? A melhor
hipótese que conheço e parece fazer sentido nesse caso foi desenvolvida
pelo matemático e filósofo Bertrand Russell. Segundo ele, aqueles que se
arvoram a analisar e julgar estruturas sociais frequentemente incorrem
em duas falácias: a do observador externo e a do aristocrata.
A falácia do observador externo decorre de se avaliar uma estrutura
social a partir de quão agradável parece ser a contemplação de seu
funcionamento. Nela se constrói “o hábito de julgar um Estado pela
teoria, e não como um ambiente em que se vive”. Assim, a ideia de
igualdade e o ideal da revolução se sobreporiam à visão da vida
miserável, da opressão e do medo de ser delatado como traidor. Talvez
seja compreensível cometer esse tipo de engano a 6 mil km de distância,
ainda mais se o observador estiver à beira de uma piscina ou à sombra de
um emprego público.
Por sua vez, a falácia do aristocrata “consiste em se julgar uma
sociedade pelo tipo de vida que ela proporciona a certa minoria
privilegiada”. Nossos admiradores do comandante muito provavelmente
sempre se imaginaram na construção do socialismo ombro a ombro com Fidel
ou assumindo um papel importante em sua corte, nunca como cidadãos
comuns. Também parece fácil se iludir e recair nessa segunda falácia se
sua experiência com Cuba for limitada a eventuais visitas a Havana
regadas a privilégios exclusivos dos apaniguados e simpatizantes,
preferencialmente bem longe de seu povo.
Finalizando, Russell observa que uma boa sociedade deve ser avaliada por
dois critérios: o bem-estar de seus cidadãos e a capacidade de evoluir
com o tempo. Em ambos, não bastassem todas as mortes contabilizadas,
Fidel e sua revolução fracassaram miseravelmente.
Como alguém pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu Como alguém
pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu legado positivamente?
legado positivamente?
*Engenheiro de produção, doutor em engenharia pela USP, diretor
executivo e consultor de gestão, é professor de liderança e
comportamento organizacional do MBA executivo do Insper
extraídaderota2014blogspot





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