Folha de São Paulo Leandro Narloch
Quando um casal começou a cantar "Sheena is a Punk Rocker" no karaokê,
eu e dois amigos improvisamos uma roda punk (aquela dança que simula
socos e chutes, perfeita para músicas dos Ramones).
Era terça-feira e só havia uma dúzia de perdidos no karaokê da praça Roosevelt.
Por isso não esbarramos nem perturbamos ninguém com a nossa patética e
deliciosa tentativa de parecer jovens. Mesmo assim, um sujeito me
interrompeu e disse:
— Será que você poderia dançar de um jeito menos heteronormativo?
Leitor, ele me disse isso, leitor.
Enquanto eu puxava o ar para despejar no rapaz uma resposta longa e
histérica, percebi que estava ali na minha frente um exemplo genuíno, um
exemplo perfeito, da nova velha carola.
No passado, a velha carola nos perseguia em nome da religião, da família
e dos bons costumes. A nova velha carola fiscaliza o comportamento
alheio em defesa das estatísticas de saúde, da sustentabilidade e contra
os "estereótipos de gênero".
A velha carola se irritava com os cassinos e a minissaia. A nova velha
carola quer proibir o Big Mac com brinquedos, o cigarro mentolado, a
propaganda de alimentos para crianças e a transmissão de MMA pela TV.
A velha carola não gostava de danças sensuais. A nova velha carola
escreve textão contra o costume de se fantasiar de mulher no Carnaval. E
se vê homens dançando como homens na balada, se irrita e pede para eles
se comportarem.
No urbanismo, a nova velha carola propõe transformar a metrópole em São
Tomé das Letras, proibindo arranha-céus e shopping centers.
No vocabulário, a nova velha carola fica uma fera se você pronunciar
certas palavras: "natureza humana", "bela, recatada e do lar", "coisa de
homem".
Prescreve até mesmo formas politicamente corretas para se usar xingamentos.
A inspiração moralista é a mesma. O carola tem na cabeça um padrão de
mundo melhor; em defesa dele cria tabus, proibições e códigos de
conduta. Essas regras costumam lembrar as leis suntuárias que tentavam
restringir o luxo e a extravagância na Idade Média.
Esse moralismo vem de longe. O psicólogo Jonathan Haidt, autor do livro
"The Righteous Mind", acredita que o ímpeto de impor regras morais aos
outros foi uma vantagem evolutiva que serviu para manter o nível da
cooperação entre os grupos humanos. "A natureza humana não é apenas
essencialmente moral, também é essencialmente moralista, crítica e
julgadora", diz ele. Somos carolas por natureza.
Eu explicava tudo isso ao rapaz do karaokê quando ele, com uma cara de
entediado ou arrependido, me interrompeu, pediu desculpas e disse que ia
fumar um cigarro lá fora. Perdi a vontade de dançar, mas ganhei a
discussão.
Uns 20 anos atrás, eu cursava ensino médio de técnico em mecânica e me
preparava para prestar vestibular para engenharia. No meu primeiro
estágio, fui parar numa empresa que assinava a Folha.
Fiquei estupefato com o jornal. Estava acostumado com jornais modorrentos; a Folha era
jovem, explorava contradições e tinha fotos coloridas. Semanas depois,
minha mãe insistia para eu jogar algumas edições da Ilustrada no lixo
–não havia espaço para elas no meu quarto. Acabei desistindo da
engenharia para tentar a faculdade de jornalismo. É um prazer estrear
uma coluna no jornal que ajudou a decidir minha carreira.
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