Editorial Estadao -
A
ditadura contagia
O Estado
de S.Paulo
Ao cancelar o registro para
exercício da medicina pela cubana Ramona Matos Rodríguez, que veio ao Brasil no
programa Mais Médicos do governo federal, o Ministério da Saúde exibiu mais uma
violação dos direitos individuais dos profissionais da saúde
"importados" da ilha caribenha para clinicar no País. Esta portaria
do Ministério da Saúde institucionaliza uma situação de "dois pesos e duas
medidas", que contraria a igualdade dos cidadãos perante a lei, essencial na
democracia.
Há dois anos, o governo
brasileiro vinha negociando com a ditadura dos irmãos Castro a vinda de médicos
de Cuba para suprir deficiências de pessoal para a saúde pública em nossos
grotões. Sob desconfiança generalizada, a equipe de Dilma Rousseff tentou
manter tais tratativas sob sigilo. Mas, enfim, seguindo a prioridade do
marketing da administração petista, anunciou o programa Mais Médicos para
preencher vagas em postos de saúde dos ermos do interior com profissionais
estrangeiros, a grande maioria deles cubanos. Empreendido na gestão do
ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, candidato do PT, partido da presidente,
ao governo do maior Estado da Federação, São Paulo, o plano já mostrou ser uma
eficiente forma de conquistar votos nas eleições de outubro, seja para a
reeleição de Dilma, seja para a pretensão de fazer de Padilha sucessor do
governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, também candidato à
reeleição. A população, antes desassistida, do interior mais remoto do Brasil
recebeu esses estrangeiros de braços abertos, a ponto de suprir as carências
causadas pela baixa remuneração do corpo médico (só no caso dos cubanos) com
alimentos e outros mimos. Isso, contudo, não tem sido suficiente para prover
uma qualidade de vida compatível com a expectativa destes médicos. A presença
de outros estrangeiros, em muito menor número e gozando de condições mais
dignas de trabalho, bastou para chamar a atenção dos ilhéus para a cruel
discriminação por eles sofrida aqui. Dos 6.658 participantes, 5.378 vieram da
ilha caribenha. Os 1.280 de outros países são minoria.
Primeira médica a pedir para se
desligar desse programa, Ramona, que trabalhava em Pacajá (PA), deixou o
trabalho em 3 de fevereiro, alegando haver desistido do projeto após ter tomado
conhecimento de que ganha muito menos do que colegas de outras nacionalidades,
embora, por convênio firmado entre Cuba, o Brasil e a Organização Pan-Americana
de Saúde (Opas), seu salário seja de R$ 10 mil mensais. Conforme informou ao
líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), a quem pediu abrigo
para ficar no País, ela, na verdade, recebia o equivalente a R$ 400 por mês,
menos que o salário mínimo, de R$ 724.
O Ministério da Saúde reconheceu
que, além de Ramona e de Ortelio Guerra, que fugiu do Recife para os Estados
Unidos, as prefeituras para cujos postos foram enviados comunicaram o
desaparecimento de mais três cubanos. E é provável que a onda de deserções
esteja apenas começando. Segundo a organização Solidariedade Sem Fronteiras,
que, em Miami, ajuda médicos cubanos que querem desertar, de sete a oito
cubanos a serviço na Bolívia, na Nicarágua e principalmente na Venezuela lhe
telefonam por semana. Pelos cálculos da entidade, já fugiram pelo menos 5 mil
médicos, enfermeiros e terapeutas cubanos numa década.
A situação dos cubanos no Brasil
não é menos degradante do que nos países citados. Além da indignidade de pagar
à ditadura dos Castros a parte do leão, ficando os trabalhadores com
praticamente um troco como remuneração pelo serviço prestado, o governo
brasileiro se submete a exigências da ditadura cubana, como a proibição de
médicos cubanos saírem das cidades onde trabalham sem autorização. É também o
caso do cancelamento do registro de Ramona, que clinicava aqui para contribuir
para as divisas de Cuba e o marketing eleitoral dos companheiros brasileiros.
Agora, por ordem do Ministério da Saúde, sempre que um médico cubano faltar ao
trabalho, sua ausência deve ser comunicada à polícia. Pelo visto, a ditadura
cubana é contagiosa.
A ditadura contagia
Brasil dos companheiros: ditadura cubana e' contagiosa - Editorial
Estadao
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