José Casado
Os brasileiros estão obrigados a
esperar mais 14 anos, ou seja, até 2027 para ter o direito de saber como seu
dinheiro foi usado em negócios
bilionários e sigilosos com Angola e Cuba.
Pelas estimativas mais
conservadoras, o Brasil já deu US$ 6 bilhões em créditos públicos aos governos
de
Luanda e Havana. Deveriam ser
operações comerciais normais, como as realizadas com outros 90 países da África
e da América
Latina por um agente do Tesouro, o BNDES, que é o principal financiador das
exportações brasileiras. No
entanto, esses contratos acabaram
virando segredo de Estado.
Todos os documentos sobre essas
transações (atas, protocolos, pareceres, notas técnicas, memorandos e
correspondências) permanecem
classificados como "secretos" há 15 meses, por decisão do ministro do
Desenvolvimento, Fernando
Pimentel, virtual candidato do PT ao governó de Minas Gerais.
É insólito, inédito desde o
regime militar, e por isso proliferam dúvidas tanto em instituições
empresariais quanto
no Congresso — a quem a
Constituição atribui o poder de fiscalizar os atos do governo em operações
financeiras, e
manda "sustar"
resoluções que "exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de
delegação legislativa".
Questionado em recente audiência
no Senado, o presidente do banco, Luciano Coutinho, esboçou uma defesa
hierárquica: "O BNDES não
trata essas operações (de exportação) sigilosamente, salvo em casos como esses
dois. Por quê? Por observância à legislação do país de destino do
financiamento." O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) interveio:
"Então, deve o Brasil
emprestar dinheiro nessas condições, atendendo às legislações dos países que
tomam
emprestado, à margem de nossa
legislação de transparência absoluta na atividade pública?" O silêncio
ecoou no
plenário.
Dos US$
6 bilhões em créditos classificados como "secretos" supõe-se que
a maior fatia (US$ 5 bilhões) esteja destinada ao financiamento
de vendas de bens e serviços para Angola, onde
três dezenas de empresas brasileiras mantêm operações. Isso
deixaria o governo angolano na posição de maior beneficiário do fundo para
exportações do BNDES. O restante (US$ 1 bilhão) iria para
Cuba, dividido entré exportações (US$ 600 milhões) e ajuda alimentar emergencial
(US$ 400 milhões).
O governo Dilma Rousseff avança
entre segredos e embaraços nas relações com tiranos como José Eduardo
Santos (Angola), os irmãos Castro
(Cuba), Robert Mugabe (Zimbabwe), Teodoro Obiang (Guiné Equatorial), Denis
Sassou Nguesso
(Congo-Brazzaville), Ali Bongo Odimba (Gabão) e Ornar al Bashir (Sudão) — este,
condenado por
genocídio e com prisão pedida à
Interpol pelo Tribunal Penal Internacional.
A diferença entre assuntos
secretos e embaraçosos, ensinou Winston Churchill, é que uns são perigosos para
o
país e outros significam desconforto para o governo.
Principalmente, durante as temporadas eleitorais.




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