por Reinaldo Azevedo Folha de São Paulo
O PT está colhendo tudo o que plantou na política brasileira. É uma pena
que, em muitos casos e aspectos, haja, como em toda guerra, tantos
danos colaterais. Mas agora é tarde para que os litigantes mudem o rumo.
A história sempre vai, nunca racha. Se a gente acha que rachou, é só
porque não gostou do entrecho, que nunca é desfecho porque isso não tem
fim.
Não por qualquer danação mística, mas por razões estritamente materiais,
somos todos vítimas e beneficiários de nossa própria concepção de
mundo. Alguns recebem palma e galardão. Outros, "cipó de aroeira no
lombo de quem mandou dar". Por que é assim? Porque costumamos nos cercar
de pessoas que são úteis às nossas utopias, prefigurações e desejos. E
com elas escolhemos o caminho da virtude ou do crime. Com elas, fazemos a
história.
Pertence mais amplamente às esquerdas e, no Brasil, especificamente ao
PT, a concepção de que só se faz política eliminando o adversário, que
tem dois caminhos: ou se rende ou será destruído. Então não é assim?
Então a narrativa de Lula não é, ainda agora, aquela do "Nós" (eles)
contra "eles" (nós)? Só pode haver diálogo onde há divergência –a
alternativa é a sujeição imposta ou voluntária.
O diálogo nunca foi o caminho necessário do PT. Por isso, no poder, a
legenda escolheu satanizar FHC e o PSDB, ideologicamente mais próximos
do petismo, e governar com PMDB, PP e a miríade sem rosto em busca de
cargos. É indecoroso, não é mesmo?, que o homem visto como a principal
liderança política do país tenha inventado uma suposta herança maldita
de FHC para construir um futuro bendito com José Sarney, Paulo Maluf e
Fernando Collor.
Espaço para a conversa, para o entendimento, para a distensão? Agora?
Por quê? Não há interlocução possível com quem quer nos destruir. Não é
questão de gosto, mas de sobrevivência. A vida nos ensina a respeitar a
natureza das coisas, das pessoas, dos processos, das entidades, dos
grupos. E o PT tem a sua. Para que pudesse fazer diferente, teria de ser
composto de outra matéria.
"Ah, política é assim mesmo..." Não é, não! Perguntem a FHC se era o PFL
o melhor parceiro de suas referências bibliográficas. Mas com quem
fazer as reformas, abrir a economia, romper algumas amarras e visões de
mundo que nos condenavam ao atraso? Quem faz política precisa saber unir
convicção e responsabilidade. Quando a primeira faz sombra na segunda,
tem-se a crise; quando o contrário, a estabilidade.
No seu 35º ano, 22 na oposição e 13 no poder –salvo engano, a melhor
relação tempo de vida/tempo de poder da história brasileira–,
pergunta-se: o PT se vergou aos valores da democracia? A resposta está
nos dois documentos redigidos pela Fundação Perseu Abramo (e
assemelhados), sob a coordenação de Márcio Pochmann, um rapaz que veste
golas chinesas como sintoma...
O lixo intelectual que ali se produziu deixa claro que, para eles, o
diálogo com o "outro mundo", com os adversários, é impossível. A
"intelligentsia" petista entende que os que não comungam de sua visão de
mundo não têm nem mesmo direito ao equívoco. Só lhes restam má-fé e
má-consciência. Ora, por que conversar com gente assim?
Diálogo com petistas? Só quando eles estiverem na oposição. Mas, como
sempre, eles não vão querer conversa porque, afinal, são vítimas e
beneficiários de sua própria concepção de mundo.
Então é guerra!
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