Um
exemplar para adolescentes de 14 anos oferece dicas ao professor sobre
maneiras criativas de auxiliar o aluno na escolha da opção sexual,
mudança de nome, e cirurgia para mudança de sexo.
Os livros didáticos recomendados pelo Ministério da Educação (MEC) para o ano de 2014 encontram-se nas escolas públicas a fim de que sejam selecionados pelos professores de cada disciplina. Pelo menos nas escolas do município de Goiânia, a escolha tem sido dolorosa para educadores inconformados com a proposta revolucionária de alguns desses livros, que sustenta doutrinamento político, ideológico e de costumes.
Há
neles textos e imagens de propaganda institucional; exaltação de
figuras socialistas brasileiras e estrangeiras; promoção do modelo
socialista, relativista e sustentável de governar; releitura de períodos
econômicos e históricos da nação; sublimação de nomes importantes do
Governo; ironia a partido político oposicionista e duvida da capacidade
para decidir de membros da oposição. Mesmo que sejam pontuais, sutis ou
implícitas, ocorrências assim podem ser tidas como intencionais para
formar opinião política, partidária e ideológica a partir da escola.
Nas
edições dos últimos anos, valores e símbolos cristãos já vinham
perdendo espaço e importância. Mas nos livros para a escola pública do
próximo ano, as referências à fé cristã praticamente desaparecem,
restando apenas alguns poucos registros das festas do catolicismo
popular. Por outro lado, eles ampliam o destaque dado aos aspectos
doutrinários e práticos de religiões de matriz africana, bruxaria,
esoterismo, além da mitologia, emprestando-lhes status de manifestação cultural e de maneiras alternativas de espiritualidade.
No
entanto, a tentativa do MEC de apontar rumos à opinião na escola não é
nova. Em abril de 2011, ele quis enviar recursos didáticos voltados à
afirmação homossexual para 6.000 escolas de ensino médio. Tratava-se de
um estojo composto de três vídeos contando histórias fictícias de
relacionamentos amorosos homossexuais, masculinos e femininos,
acompanhados de um guia para orientação do professor. Apelidado na época
de “kit gay”, o material foi elaborado pela organização não
governamental Ecos – Comunicação em Sexualidade, em parceria com a
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais (ABGLT). Teoricamente, serviria para combater o preconceito
contra a pessoa homossexual na escola, mas foi entendido pelos seus
opositores como indutor para a escolha de conduta sexual.
Esse
questionamento levantado pelas bancadas católica, evangélica e da
família foi levado à presidente Dilma Rousseff que, depois de assistir
aos vídeos, vetou a distribuição dos mesmos para as escolas. Um dos
argumentos que motivou a decisão dela foi o reconhecimento da
necessidade de enfrentar as diversas situações de preconceito na escola,
mas com abordagem diferente. Como se tratava de material complementar
que não respingava no conteúdo dos livros, não foi difícil para o MEC
cumprir a determinação presidencial. Na oportunidade, o ministro
Gilberto Carvalho prometeu às representações políticas que, dali em
diante, toda edição de material sobre “costumes” passaria antes pelo
crivo da Presidência e por um amplo debate com a sociedade civil.
Mas
o MEC ignorou o combinado e fez ressurgir o projeto, no livro didático
de 2014. Como se não bastasse, acrescentou o delicado tema da
configuração familiar. Desse propósito para a desconstrução do modelo
tradicional de família, não escapa nem mesmo o Plano Nacional pela
Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) quando apresenta, de maneira
lúdica, as novas famílias para crianças com 8 anos de idade. Um dos
livros traz cinco gravuras de pares gays masculinos e femininos
acompanhados de crianças, comumente misturados à família tradicional. E
este mesmo tema é recorrente em livros para as idades subsequentes. Um
exemplar para adolescentes de 14 anos oferece dicas ao professor sobre
maneiras criativas de auxiliar o aluno na escolha da opção sexual,
mudança de nome, e cirurgia para mudança de sexo. O educador é
orientado, inclusive, a montar estratégias de convencimento a partir de
comportamentos sexuais de pessoas que, através da mídia, são conhecidas
do grande público.
Caso
haja nova pressão política e a determinação presidencial se repita, não
poderia ser cumprida facilmente com o material didático do próximo ano
visto que ele foi cuidadosamente produzido para não sofrer alterações.
Isto porque os temas homossexuais e familiares não mais se apresentam
separados do conjunto didático, mas se misturam aos conteúdos de algumas
disciplinas. Com isso, vale questionar se a quebra da promessa
presidencial de não promover padrões de comportamento, ainda mais na
escola, sem uma ampla discussão com a sociedade civil organizada foi por
conta e risco do MEC ou teve o aval do Planalto.
Ao
contrário do que pode pensar o MEC, estas mudanças produzem
estranhamento entre os professores. Por mais que ofereça cursos e
palestras com a finalidade de convencê-los e/ou convertê-los para essas
ideias. É de se esperar que a proporção de educadores contrários e
favoráveis à inserção destes temas na educação básica não seja diferente
daquela encontrada na população. E, se estes livros são capazes de
chocar professores e familiares numa grande cidade, a exemplo de
Goiânia, não é difícil imaginar a dimensão do impacto que suas
ideologias poderão causar às famílias das pequenas cidades e povoados do
interior brasileiro.
Mas
o Governo se propôs a uma revolução e acredita que ela possa ser
operada por meio de uma educação que subjetive as pessoas. Deve ser por
isso que ele investe no aparelhamento ideológico da escola e da
universidade públicas para que elas mesmas se incumbam de promover as
mudanças por ele pretendidas na mente da sociedade. Inclusive, o viés de
abordagem dos temas transversais que aparece nos livros é uma síntese
de pesquisas, congressos, simpósios e seminários da universidade. A
tendência é que os livros didáticos para a escola pública, que são
recomendados pelo MEC, sirvam de parâmetro para o mercado editorial como
um todo e alcance também as escolas particulares, inclusive as
confessionais. Isto porque o milionário mercado dos livros didáticos e
paradidáticos vive ao sabor das conveniências, mesmo que elas movimentem
a sociedade para lugares estranhos.
Para ver alguns dos absurdos presentes nos novos livros didáticos, clique no link
https://skydrive.live.com/view.aspx?resid=73129AF52D9609B6!151&app=WordPdf&authkey=!AFXH2_HgSJsftok
Orley José da Silva é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em ministério (SPRBC).





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